Por falar em mulheres!

porCarlos da Torre

17 de março 2026 - 21:33
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A Islândia é o país com as menores diferenças de género no mundo, ocupou em 2024 pelo 15.º ano consecutivo o 1.º lugar nesta vertente do Fórum Económico Mundial e tem promovido a participação de uma elevada percentagem de mulheres no parlamento e nos governos.

Imagem de Carlos da Torre
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Entramos no segundo quartel do século vinte e um com fortes ameaças de recuo civilizacional muito preocupantes em diversos aspetos da nossa vida em sociedade. A igualdade entre homens e mulheres é um deles. Aquilo a que a direita mais extremista chama “ideologia de género” tem sido uma das falácias ideológicas que enviesa o debate sério e responsável sobre o feminismo, a identidade de género, a liberdade sexual e o respeito pela diversidade humana.

O tema é vasto, vale a pena aprofundá-lo, mas neste pequeno texto proponho-me apenas apontar alguns indicadores conhecidos sobre obvias desigualdades, injustiças e realidades criminosamente violentas, que, mesmo após séculos de denúncias e lutas feministas, persistem no mundo e, particularmente, na sociedade portuguesa. E porque é bom trazer a estas conversas bons exemplos de caminho feito, mesmo sendo noutras terras e com outra gente, propor-vos alguma atenção para a realidade da Islândia, o país com as menores diferenças de género no mundo, que ocupou em 2024 pelo 15.º ano consecutivo o 1.º lugar nesta vertente do Fórum Económico Mundial.

Em Portugal, onde se ganha pouquíssimo, como todos sabemos, a diferença no salário médio total entre homens e mulheres ultrapassa os 15% para a globalidade das categorias profissionais e é ainda mais elevada para as posições de gestão e direção, situando-se aí acima dos 25%. Além disso, em cargos executivos de topo nas empresas a percentagem de mulheres no universo da economia portuguesa é de 17%, embora haja mais mulheres do que homens com curso superior. Por outro lado, estudos indicam que, em média, as mulheres ocupam cerca de mais duas horas por dia do que os homens em trabalhos domésticos e a cuidar da família. Sabemos também que 80% das vítimas de violência doméstica são mulheres. Estamos a falar de dezenas de milhares de casos e dezenas de assassinatos por ano. Em mais de 90% das violações registadas as vítimas são mulheres. A violência contra mulheres ocorre em múltiplas formas, física, sexual, psicológica, económica, etc., não sendo reportados muitos casos, constituindo por isso, em parte, uma realidade sem visibilidade estatística, muito menos com consequências na justiça.

E a Islândia? Como funciona a realidade islandesa? Comecemos por enunciar 3 decisões políticas estruturantes: 1. Licença parental partilhada obrigatória: Pai e mãe têm tempos iguais e intransmissíveis, o que remove o "estigma" da contratação de mulheres em idade fértil; 2. Lei da Igualdade Salarial. Na Islândia, as empresas são obrigadas por lei a provar que pagam o mesmo a homens e mulheres para obterem uma certificação governamental; 3. Representação Política. A Islândia tem promovido a participação de uma elevada percentagem de mulheres no parlamento e nos governos. E o maior incremento para estas mudanças não veio sequer de um partido. Veio da atividade cívica. Em 24 de outubro de 1975, 90% das mulheres islandesas fizeram greve, paralisando o país em protesto pela desvalorização de que se sentiam vítimas, evidenciando a sua importância social e o seu valor económico. Esta greve feminista, com uma forte componente operária, forçou praticamente todos os partidos a colocar a igualdade no topo da agenda e levou à eleição de Vigdís Finnbogadóttir, em 1980, a primeira mulher no mundo a ser eleita presidente democraticamente.

Esta movimentação social dos anos setenta transformou a igualdade numa questão incontornável naquele país. Tornou quase impossível para qualquer político opor-se a medidas que promovam o equilíbrio entre homens e mulheres.

Hoje, a Islândia, pelo seu exemplo, exerce no mundo uma influência muito superior ao seu tamanho demográfico, com menos de 400 mil habitantes, sendo considerada a mais impactante referência global no desenho de políticas de paridade pela ONU e pelo Fórum Económico Mundial.

Curiosamente, a Islândia é também, no campo da transição energética, considerada por muitos cientistas uma espécie de laboratório vivo para o combate às alterações climáticas.

Caso para refletirmos no que todos temos a ganhar com a igualdade entre homens e mulheres! Com mais mulheres na política!

Carlos da Torre
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Carlos da Torre

Designer e artista visual
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