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Política da falta de memória

O ator político pode mover-se quase à vontade, fazer e prometer o que entender, dizer uma coisa e o seu contrário no espaço de poucos dias, que dificilmente será responsabilizado por tal facto.

Ao mesmo tempo que o PS continua a sua lavagem de roupa suja em praça pública, a maioria governamental ganhou a nova esperança de conseguir vencer as legislativas de 2015. Para além deste momento menos bom no PS estar a dar um novo impulso ao seu adversário, estas dinâmicas refletem também um fenómeno mais do que conhecido no panorama político atual: a falta de memória.

Por um lado, o PDS e CDS apostam agora tudo no branqueamento das suas principais políticas dos últimos anos. Tentam fazê-lo a coberto da suposta responsabilidade com que conduziram a austeridade. Foram duros, mas apostam agora tudo na mensagem de que o pior já passou, que o país está a sair do buraco, que os sinais de melhoria estão à vista. E repetindo esta mensagem até à exaustão, ela começa a ganhar as suas raízes e a ser assumida como uma quase verdade. O eleitorado quer mensagens de esperança, quer mensagens que lhe permitam virar a página deste período negro, por isso adere com alguma facilidade a este tipo de narrativa.

Por seu turno, o PS submerso na sua espécie de guerra civil interna, também não parece muito preocupado em sequer disfarçar as jogadas sujas, as golpadas e os ódios que na sua estrutura interna proliferam. Apenas está apostado em que este processo seja rápido, porque sabe que o eleitorado conseguirá esquecê-lo no espaço de poucos meses. E caso vençam as legislativas de 2015, as facadas internas de hoje rapidamente se transformarão em abraços amanhã, porque o poder tem a magia de tudo curar no seio de uma estrutura partidária.

“Há muita falta de memória”. A frase curiosamente celebrizada por Jorge Coelho reflete uma das maiores fatalidades da política dos dias que correm. O alheamento que existe, associado a uma mediatização que conduz em absoluto a agenda política, determina que o que hoje é feito dificilmente será devidamente recordado ou julgado amanhã. Ou seja, o ator político pode mover-se quase à vontade, fazer e prometer o que entender, dizer uma coisa e o seu contrário no espaço de poucos dias, que dificilmente será responsabilizado por tal facto. Dificilmente alguém o questionará no futuro sobre os seus anteriores atos ou sobre a coerência das suas posições. Remotamente, tal cenário até existe, mas as possibilidades de acontecer são ínfimas.

Enquanto assim acontecer, enquanto a aposta na falta de memória compensar largamente, dificilmente o panorama se alterará. Enquanto os cidadãos continuarem alheados, enquanto a sociedade civil não tiver força para denunciar estes processos, enquanto a comunicação social tiver dificuldade em cumprir o seu papel de “watch dog”, a política da falta de memória continuará alegremente.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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