Está aqui

Política da inevitabilidade constrói caminho para novo pedido de resgate

Reconhecer, como concluíram o Presidente e o primeiro-ministro, que Portugal pode ser o próximo país a cair é colocar a cabeça no cepo da especulação internacional e tornar o país ainda mais indefeso e dependente dos humores dos famosos mercados.

Há vida para além da troika. A política da inevitabilidade corrói o país e mina a economia. A política da inevitabilidade está a construir o caminho para um novo pedido de resgate para Portugal. Assim o tem feito Passos Coelho. Dizendo que Portugal não é a Grécia, coloca o nosso país dependente do futuro grego. Estas declarações são um erro. Um erro grave, e produzem elas próprias as condições para Portugal estar mais dependente de um acordo com a troika ainda mais duro do que o actual.

Nas declarações de ontem, o Presidente da República admitiu a possibilidade de, perante o agudizar da incerteza sobre o futuro da Grécia, Portugal ter de recorrer a um novo plano internacional de resgate. Estas declarações persistem no erro e não estão à altura das necessidades do país.

Há várias semanas que a incerteza sobre o futuro da Grécia no Euro marca os cabeçalhos de toda a imprensa económica internacional. Estas afirmações do Presidente e do primeiro-ministro produzem resultados. Intensificam a pressão especulativa sobre Portugal, afastam investidores, concentram ainda mais os olhares da influente imprensa financeira. Resumindo. A cada declaração destas sobre Portugal, materializa-se a inevitabilidade: Portugal será mesmo a nova Grécia.

Reconhecer, como concluíram o Presidente e o primeiro-ministro, que Portugal pode ser o próximo país a cair é colocar a cabeça no cepo da especulação internacional e tornar o país ainda mais indefeso e dependente dos humores dos famosos mercados.

Dizer, como o fez aqui mesmo o Presidente, que há limites para os sacrifícios que os portugueses podem suportar, e depois convocar as condições necessárias para um segundo plano de quem só conhece a austeridade recessiva, não é só incompreensível, é mesmo suicidário.

Que ninguém tenha ilusões. Um segundo acordo com a troika não irá conduzir à “revitalização do tecido produtivo nacional, investimento privado, combate ao desemprego, aumento da produtividade e da produção”, de que ontem falava o Presidente da República.

Olhemos para a Grécia. Mesmo depois de anunciar uma recessão de 8% nos próximos dois anos, por causa de um consumo privado inexistente, a resposta da troika foi rápida: é preciso ainda mais austeridade. É a única resposta dos viciados na crise e é isso que está a destruir a Grécia.

Nada disto tem a ver com os resultados da economia, ou com a vida das pessoas. É uma questão de fé. Apenas uma e só uma realidade interessa. Aproveitar a crise para conduzir à mais brutal desregulação do mercado laboral, tornado numa verdadeira selva, e baixar ainda mais os salários.

Se os juros actuais, com uma recessão galopante, já são incomportáveis, o segundo plano de resgate de que falam Cavaco Silva e Passos Coelho representaria um garrote financeiro que rapidamente asfixiaria o país e empobreceria ainda mais os portugueses.

O desafio para o país é o crescimento económico e o crescimento é a chave para vencer a crise do euro. Sem desculpas, nem inevitabilidades, sem novos planos de resgate.

“É necessário fazer crescer a economia” – dizia ontem o Presidente da República. Há seis meses falava nos limites para os sacrifícios que se podem pedir aos portugueses. Vemos, afinal, que estas palavras foram levadas pelo vento, porque a austeridade mostra a sua marca na destruição que já se sente na economia e os portugueses são chamados sempre a mais sacrifícios.

No final de Agosto, o Governo apresentou o Documento de Estratégia Orçamental onde apresentava uma recessão para 2012 de 1,8 pontos percentuais do PIB. E este cenário negro, tornou-se ainda pior: Apenas um mês depois, assistimos a uma derrapagem nas previsões governamentais de 0,5 pontos percentuais. De 1,8 passou a 2,3. É uma diferença de 1000 milhões de euros, metade do subsídio de Natal dos portugueses. Este é o resultado da austeridade em cima da austeridade, que destrói a economia, destrói emprego e abre as portas à recessão.

O Banco de Portugal confirmou hoje essa derrapagem nas previsões para o crescimento da economia. Onde não há política para o crescimento, instala-se a recessão. Onde se instala a recessão aumentam as dívidas. Onde aumentam as dívidas, atiram-se países para novos pedidos de resgate financeiro. Esse é o país para onde nos leva este Governo. Em nome da inevitabilidade está a colocar o país no abismo. Esse é o caminho que não podemos aceitar.

Ainda no final da semana passada o Ministro das Finanças veio anunciar novas medidas de austeridade para 2012. O Governo mostra assim que não quer ver o resultado demolidor das suas políticas. Dizem ao país que são inevitabilidades, mas a realidade é bem diferente. Inevitabilidade é a austeridade conduzir à recessão e impedir o crescimento económico.

Paulo Portas já se esqueceu do compromisso que o CDS assumiu em defesa da economia. Dizia ele que “Pensar primeiro no défice e só depois na economia é não resolver o problema do défice”. Quão longe vão estas palavras.

O mesmo se passa com Passos Coelho. Antes das eleições dizia que “o crescimento económico é a única solução para os problemas orçamentais de Portugal”. Depois das eleições, só conhece a austeridade. De crescimento nada vemos na acção deste Governo, só o cavar mais fundo na recessão. É uma questão de fé. E a fé, como se sabe, é imune à realidade e não se discute.

Declaração política do Bloco de Esquerda na Assembleia da República - 6 de Outubro 2011

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
Comentários (1)