Pobreza e trabalho

porNuno Alves

18 de novembro 2013 - 0:14
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Para além da privação material, a pobreza constitui uma limitação de capacidades, de escolhas, do poder de gozo dos direitos civis, políticos, culturais e sociais.

Trabalhadores pobres – Auto e hétero-imagem dos beneficiários de apoios sociais

Autoimagem

Imagem do Outro pelos entrevistados

Heteroimagem

Poupança e organização.

O apoio é usado para a sobrevivência.

Não comete extravagâncias.

 

Muitos gastam dinheiro recebido nos cafés e numa vida de ócio.

 

 

 

 

 

Vivem dos apoios sociais e não querem trabalhar.

Quer trabalhar/gosta de trabalhar.

Não querem trabalhar.

 

Merecedor(a) do apoio recebido.

Pessoas jovens e capazes.

Preferem uma vida à conta dos apoios do Estado.

Trabalho e descontos para a Segurança Social.

Não trabalham e não descontam, só recebem.

Valor como trabalhador, o apoio é situação temporária ou localizada.

Há muitos que se acomodam à vida de apoios sociais e não procuram alternativas.

Fonte: Barómetro do Observatório de Luta contra a Pobreza na cidade de Lisboa, Dinâmia-CET, 2011.

 

Indissociavelmente ligada à dimensão económica (necessidades materiais), a pobreza é uma realidade complexa, conexiona-se com a própria liberdade. Uma pessoa com fome não é livre. Para além da privação material, a pobreza constitui uma limitação de capacidades, de escolhas, do poder de gozo dos direitos civis, políticos, culturais e sociais. É um intolerável desperdício de talento. É desta forma que é encarada pelo economista e Prémio Nobel Amartya Sen. Mais do que a falta de dinheiro, é não ter a possibilidade para realizar o potencial de cada ser humano. E os que se encontram nas margens do sistema produtivo - desempregados, trabalhadores precários, doentes ou pessoas idosas -, estão em situação especialmente vulnerável.

Numa análise de longa duração (1995-2009), verifica-se que os trabalhadores mais pobres não viram o seu rendimento aumentar significativamente. Em 1995 o ganho médio dos 20% de trabalhadores com menores rendimentos era de € 364. Passados 10 anos, esse valor subiu apenas para € 427, e em 2009 era de € 471. Durante o mesmo período de tempo, os 20% de trabalhadores com rendimentos médios mais elevados passaram de € 1717 para os € 2114 (2005), e depois para € 2237 (2009). Num estudo nesta área realizado para a Santa Casa da Misericórdia 1, observou-se que metade dos inquiridos não tinha vínculo laboral ou trabalhava a recibos verdes e tinha experienciado períodos de desemprego nos 12 meses antecedentes. Noutro estudo, agora efetuado pela REAPN, Amnistia Internacional e SOCIUS 2, foram identificados como vulneráveis à situação de pobreza, os empregados com baixos salários e os trabalhadores precários. As causas mais citadas foram: o desemprego de longa duração, os baixos salários e o trabalho precário. O trabalho e o emprego, que assumiam nas sociedades modernas um papel fundamental para a definição e posicionamento dos indivíduos na sociedade, hoje não representam uma garantia contra a pobreza.

Em democracia a pobreza desejável é “aquilo que o público está disposto a pagar em impostos, como um rendimento mínimo – o nível de pobreza financiável”3. Mas se a validade dessa escolha assenta num critério quantitativo (a maioria), o doseamento assenta em critérios qualitativos. Ora, a ideologia, a ignorância e a inércia – três Is incontornáveis4 - reforçam a armadilha da pobreza e contribuem para reforçar as perceções negativas sobre o fenómeno. É possível tornar a sociedade portuguesa um lugar melhor, mas não com estas políticas.

1Castro e Guerra, et al, 2010, Barómetro OLCPCL, 2011.

2Barómetro, op cit.

3Piachaud (1987), citado por Alfredo Bruto da Costa (2008), “Um olhar sobre a pobreza”, Vulnerabilidade e exclusão social no Portugal contemporâneo”, Lisboa, Gradiva,

4Banerjee, Abhijit V. e Esther Duflo (2012), A Economia dos Pobres. Repensar de modo radical a luta contra a pobreza global, Lisboa, Circulo de Leitores.

Nuno Alves
Sobre o/a autor(a)

Nuno Alves

Jurista
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