Pizarro inicia o colapso do SNS

porLuís Mós

31 de maio 2023 - 16:17
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O fracasso da política de saúde materna do ministro da Saúde, Manuel Pizarro, ficou bem evidente, quando descobrimos que o setor público vai recorrer ao setor privado para dar resposta aos nascimentos no próximo Verão.

O fracasso da política de saúde materna do ministro da Saúde, Manuel Pizarro, ficou bem evidente e claro em 24 de maio último, quando descobrimos que o setor público vai recorrer ao setor privado para dar resposta aos nascimentos no próximo Verão. Uma opção que demonstra um falhanço em toda a linha de um Governo que não consegue reter os médicos no SNS através de carreiras dignas e evolução na diferenciação dos cuidados, levando estes a procurarem o setor privado e alguns até a emigração.

Paralelamente, a orientação da Direção-Geral de Saúde (DGS) para os blocos de partos poderia atenuar essa escassez do quadro médico e assim assegurar as escalas de Verão.

Até ao momento, a solução encontrada passou pelo encerramento alternado dos blocos de partos na região da grande Lisboa, com os inerentes constrangimentos para todas as grávidas que, neste país, são obrigadas a procurar um local para o nascimento do seu filho.

em 2021, os hospitais privados registaram 64,7% de cesarianas, o que vai contra todas as indicações da OMS, que preconiza entre 10 a 15%

Como já alertei, o período de Verão será catastrófico para as grávidas. A solução deste Governo é, agora, o setor privado, com repercussões nada animadoras. Vejamos os indicadores, manifestamente maus. Segundo a Pordata, em 2021, os hospitais privados registaram 64,7% de cesarianas, o que vai contra todas as indicações da OMS, que preconiza entre 10 a 15%.

Ainda segundo a OMS, as cesarianas podem causar complicações maternas significativas e, às vezes permanentes, assim como sequelas ou morte. Para os bebés também não é o melhor, pois aumenta o risco de dificuldade respiratória transitória ou síndrome de desconforto respiratório, sendo estas as mais comuns.

E como será feito esse encaminhamento? Os privados ficam somente com as grávidas de baixo risco e sem patologia? Quem define essa triagem? Muito provavelmente, será o privado a selecionar o que mais lhe interessa, menosprezando o interesse público do SNS. Sabemos como funcionam, sempre no encalço do lucro.

Manuel Pizarro é um ministro refém de interesses instalados e o setor privado esfrega as mãos de contentamento, pois aumentará ainda mais os seus lucros, sempre fazendo da Saúde um negócio cada vez mais chorudo.

As grávidas precisam de um serviço com qualidade, não de uma fábrica de fazer cesarianas ou de induções, o que contraria as recomendações internacionais de boas práticas.

Manuel Pizarro procura uma solução fácil, basta pagar com o dinheiro dos nossos impostos, mas qual o preço? Estamos a iniciar um processo de não retorno relativamente ao mundo da obstetrícia, com risco de agravamento dos indicadores de saúde materno infantis, que tanto nos orgulhamos. No futuro seguir-se-á a pediatria, consultas de acompanhamento familiar e tudo o que o privado quiser.

Será certamente o obreiro responsável por políticas liberais na Saúde e o consequente esvaziamento do setor público nas respostas à população.

Começa a tornar-se por demais evidente que o SNS precisa de novas políticas e de novos políticos, verdadeiramente interessados em salvar o bom que é ter um verdadeiro SNS público.

Luís Mós
Sobre o/a autor(a)

Luís Mós

Enfermeiro Especialista de Saúde Materna e Obstétrica no Hospital Fernando Fonseca. Coordenador da Delegação Regional Sul do SINDEPOR
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