Com cerca de 30 mil lóbistas, Bruxelas é a segunda capital do mundo com mais profissionais do lobbying, depois de Washington DC. A sua presença tem um impacto físico na cidade, com a criação de uma arquitectura do poder no bairro que circunda as instituições europeias, onde a máxima do imobiliário “location, location, location” não podia ser mais clara. Os prédios são maioritariamente edifícios de escritórios luxuosos, e quem os ocupa não está lá por acaso. As estratégias e técnicas de lobbying têm ficado cada vez mais subtis e sofisticadas, e vou falar neste texto das consequências que têm, mas por vezes ainda têm uma componente muito física e mesmo básica. Um eurodeputado holandês descreveu-me uma vez, por exemplo, como foi seguido até dentro da casa de banho por um lobista da indústria fóssil que o queria obrigar a ouvir o seu ponto de vista!
7500 pessoas têm um passe de lobista para aceder ao Parlamento Europeu, o que significa que podem entrar e sair sempre que quiserem, sem qualquer supervisão (ao contrário de todas as outras pessoas que visitam as instituições) e podem organizar eventos dentro do mesmo. Há uns anos atrás estava em discussão a reforma do REACH (o regulamento relativo ao registo, avaliação, autorização e restrição de substâncias químicas), a principal legislação da UE destinada a proteger a saúde e o ambiente das substâncias químicas. Na altura, várias investigações começaram a estabelecer uma ligação entre uns químicos, neocotinóides, e o declínio da população de abelhas e outros insectos polarizadores. Em plena batalha pela proibição destas substâncias, a gigante alemã BASF, usando um grupo de fachada chamado “Rede de Biodiversidade das Abelhas” organizou uma exposição dentro do Parlamento Europeu em que reduzia o impacto negativo dos pesticidas e atribuía “outras causas” ao declínio da população de abelhas.
Existe um registo de transparência da UE, onde as empresas autodeclaram quanto dinheiro gastam em lobbying, sobre que temas estão a trabalhar e quem têm contratado com acreditação para entrar no Parlamento Europeu. Segundo o registo de transparência, as empresas e as suas associações corporativas (por exemplo, uma empresa como a Volkswagen actua directamente, mas também enquanto membro da Associação Europeia de Fabricantes Automóveis) gastam cerca de 1.3 biliões de euros por ano. Este valor refere-se apenas ao nível da União Europeia, porque as principais indústrias também se dedicam ao lobbying nos diferentes países. Porém, como esse registo é autodeclarado, este valor é seguramente uma sobre estimativa.
Há uns anos atrás a Monsanto (que actualmente pertence à Bayer) contratou a gigante empresa de comunicação Fleishman Hillard (que ocupa o primeiro lugar no ranking de quem mais declara gastar em lobbying na UE, mais de 11 milhões anualmente) para trabalhar sobre a autorização de utilização do glifosato. Este é o pesticida mais utilizado mundialmente, também conhecido pelo nome comercial de Round Up, e há décadas que se acumulam estudos e provas da sua ligação com determinados tipos de cancro e outros problemas de saúde. Na altura, a Monsanto declarou no registo de transparência que pagou 1.4 milhões à Fleishman Hillard pelo trabalho, mas um whistleblower divulgou documentos que provaram que na verdade tinha pago dez vezes mais, 14.5 milhões. E a indústria nunca gastou tanto dinheiro em lobbying como o faz hoje em dia. Apenas as 50 empresas que mais despendem em lobbying, gastam cerca de 200 mil milhões de euros por ano na UE – um aumento de dois terços em relação a 2015.
Como se vê pelos exemplos acima, há uma enorme falta de transparência em tudo o que rodeia a determinação de políticas da UE, ao qual se soma o déficit democrático das instituições (a única que tem capacidade legislativa, a Comissão Europeia, é constituída por membros que não são eleitos pelos cidadãos europeus). Um outro problema é quem é consultado pela Comissão Europeia para sugerir a melhor via de acção. Parece absurdo, mas as instituições europeias têm falta de pessoal, e, porque têm de possuir um conhecimento ao mesmo tempo generalizado e hiper especializado, ao mesmo tempo técnico e político, muitas vezes recorrem a peritos. Estes grupos de peritos são escolhidos pela própria Comissão e, surpresa das surpresas, são dominados pelas empresas e, pior ainda, pelas empresas que têm um conflito de interesses claro, pois beneficiam das decisões tomadas pela Comissão. Por exemplo, depois da crise económica de 2008, a Comissão criou um grupo de peritos para arranjar soluções para sair da crise. O grupo era presidido por Jacques de Larosière, figura sénior da indústria financeira, e quatro dos oito elementos do grupo estavam ligados às mesmas gigantes da banca que tinham sido responsáveis pela crise para começar (Lehman Brothers, BNP Paribas, Goldman Sachs e Citigroup). A Comissão recebeu recomendações sobre como regulamentar o sector financeiro do próprio sector financeiro. Não admira que a reforma do sector tenha sido tão pouco ambiciosa. Mais recentemente, depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, a ainda presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, anunciou a criação de um grupo para ajudar a UE a abandonar o gás russo e prever as necessidades futuras por parte da UE. O grupo foi criado a pedido da BP, Total e Eni e dele constavam apenas empresas, a larga maioria das quais de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo que a Comissão se recusava a receber representantes de grupos ambientalistas. É mais um claríssimo exemplo de um conflito de interesses, dando ao lóbi do gás o poder de influenciar a política energética da UE em resposta à invasão, claramente estamos a prolongar a nossa dependência em combustíveis fósseis.
Mas em 2026 não poderíamos falar de lobbying na Europa sem referir o mais poderoso sector, que gasta mais dinheiro a influenciar as políticas europeias do que alguma vez algum sector gastou. 151 milhões é quanto os gigantes da indústria tecnológica, big tech, declaram gastar anualmente em lobbying em Bruxelas, um aumento de 56% em relação a 2021. Os nomes mais sonantes são a Meta, Amazon, Google, Apple e Microsoft, e os tech bros não gastam dinheiro em vão, o dinheiro garante presença e acesso. Presença pois há neste momento 890 lóbistas declarados a trabalhar para essa indústria – são mais do que os eurodeputados. E acesso porque as cinco empresas que referi – apenas essas cinco – tiveram em média três reuniões por cada dia de trabalho com decisores políticos, duas por dia com eurodeputados, uma com membros da Comissão. Tudo isto enquanto as regras e os nossos direitos digitais da UE estão sob enorme pressão – tanto externa, pelo governo de Trump, como interna pela própria Comissão -, pondo em perigo leis como o RGDP e a regulamentação da IA. O poder dos tech bros não é apenas sem precedentes, é altamente preocupante e acontece à medida que o lobbying por parte da indústria lhes garante acesso a aspectos cada vez mais essenciais da sociedade, da informação que consumimos à infra-estrutura digital da qual dependemos.
Desde 2005 que a ONU implementou o Quadro para o Controlo do Tabaco, um acordo (assinado pela UE e todos os estados membros), que exige que os lóbistas da indústria tabaqueira não possam estar presentes quando se estão a decidir políticas de saúde pública. Volto, então, à pergunta que dá título a este artigo: pedirias conselhos a uma empresa de tabaco sobre como deixar de fumar? Claro que não, e da mesma forma qualquer indústria com conflito de interesses não pode ter um lugar na mesa de negociações de políticas públicas que vão afectar todas as pessoas. A boa notícia é que há um precedente, exactamente com a indústria do tabaco. Basta implementá-lo nos outros sectores.
Artigo publicado em Anticapitalista #86 – Maio 2026