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Pedro, poderemos ser contemporâneos?

Pedro: nascemos ao mesmo tempo, no mesmo país, mas em dois lados distintos do mundo. Os nossos percursos só agora se tocaram, nas salas da Universidade. Os meus antepassados escravizaram os teus.

Aproxima-se o Natal, fazem-se balanços, erguem-se votos piedosos e o mundo está cada vez mais uma merda. Podia pegar em Neruda e, em vez de falar de Madrid da guerra civil espanhola, atacada pelos falangistas, explicar que a poesia não pode falar de nenúfares quando se assiste à matança na Palestina:

“Vinde ver o sangue pelas ruas!”. E o verso repete três vezes, para sentirmos o sangue ainda quente da barbárie.

Mas quero falar-vos do meu aluno Pedro Maria, que tem a minha idade, 54 anos, e é angolano e negro.

Pedro: nascemos ao mesmo tempo, no mesmo país, mas em dois lados distintos do mundo. Os nossos percursos só agora se tocaram, nas salas da Universidade. Os meus antepassados escravizaram os teus. Ainda há poucas semanas, no Rio de Janeiro, levei a minha filha ao cais do Valongo, onde atracavam os navios negreiros. Milhares de pessoas foram comprimidas umas contra as outras no convés, tantos e tantas morriam na viagem, e doença, fome, exaustão. Aos sobreviventes, sobrava-lhes ainda uma vida curta de exploração e humilhação, cuja memória está bem viva num Brasil onde nascer negro ainda é destino de pobreza e discriminação. Não quero esquecer e importa falarmos sobre isso.

Gostava, Pedro, que fosses meu contemporâneo, de uma forma intensa, não reduzida às boas maneiras de que falava o poeta Ruy Belo:

“Cruzámos nossos olhos em alguma esquina

demos civicamente os bons dias:

chamar-nos-ão vais ver contemporâneos”.

Quero falar de Angola e das contradições da minha família de colonos. Meu pai, sabias, era comunista e militante do MPLA. Chorou de felicidade no dia em que o teu país se tornou independente.

Tenho a esperança de que poderemos conversar demoradamente sobre a sociologia, em que ambos nos envolvemos, como forma de compreender e transformar o mundo. Mas também das nossas famílias, dos amigos e dos livros que nos ardem nas mãos. Talvez consigamos superar os lugares de onde partimos e alcançar um entendimento transcolonial em que somos o que o nosso diálogo nos transformou, sem nada esconder ou esquecer. Nesse novo ponto de partida, conseguiremos imaginar uma Angola socialista, longe da burguesia que a capturou roubando o seu povo? Socialista e livre, um país onde cabem todos e onde irrompe a alegria dos musseques na sua luta... E de um Portugal justo, solidário e aberto para todas as pessoas que nele querem morar.

Poderemos, Pedro, ser enfim contemporâneos?

Artigo publicado em Gerador a 21 dezembro 2023

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário. Doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação, coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.
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