O ataque do grupo Hamas a que assistimos no dia 7 de outubro é indiscutivelmente condenável, na medida em que tomou civis inocentes como alvo e como instrumento de guerra, fazendo deles reféns. O que se passa entre Israel e a Palestina é mais do que um simples conflito, é colonialismo e genocídio que já dura há mais de 45 anos. Desde 1946 que o território da Palestina vem a ser ocupado ilegalmente por Israel. Há claramente um opressor e um oprimido, escolher a neutralidade é ficar do lado do opressor.
Não deixa de ser curioso quando somos primeiros a condenar a Rússia pela invasão à Ucrânia (e com razão), mas nunca temos o mesmo ênfase para condenar Israel que há anos está a ocupar o território da Palestina, que ainda não é reconhecida como estado independente e neutral. A colonização de Israel e as vítimas inocentes palestinianas nunca foram capa de jornal, nem alvo de condenação por parte de entidades portuguesas.
Estes factos só me levam a concluir que não pode haver “boa xenofobia”, não há “guerras boas” e “guerras más”, ao focar apenas em guerras mediáticas, defender umas vítimas, mas não defender outras, estamos na verdade a sobrepor guerras. É como se tivéssemos um olho aberto para a guerra da Ucrânia e um olho fechado para a guerra da Palestina. E não deixa de ser curioso também como aqueles que nunca condenaram os ataques de Israel são os primeiros a condenar o ataque do Hamas.
Não consigo deixar contraditório a maneira como Portugal, tal como a UE e a NATO, ao mesmo tempo apoia a Ucrânia e Israel, quando uma é vítima e tem direito ao seu território livre, enquanto outra é opressora e ocupa um território que não lhe pertence e que, infelizmente, ainda não foi reconhecido como país. É extremamente incoerente.
Desde sempre, todos os pedidos de ajuda internacional e humanitária da Palestina foram ignorados, e apesar de, durante os ataques de Israel, o número de vítimas mortais palestinianas ter sido sempre muito superior ao de israelitas, que são resultado da ocupação, os estados europeus nunca reagiram.
É importante ressalvar como o discurso antissemita não pode nem é válido para ser usado em defesa da Palestina. Esta não é uma questão religiosa, o ataque à religião judia não pode ter lugar neste debate. O direito à resistência palestiniana contra a ocupação não pode ser confundido com a apologia do terrorismo.
Por agora, mais de 65 milhões de palestinianos estão registados como refugiados e milhares deles continuam a ser massacrados todos os dias, na faixa de Gaza e não só. Israel já cercou a faixa de Gaza e já deixou milhares de palestinianos sem luz e sem água. Benjamin Netanyahu já disse que a Palestina “arcará com resultados como nunca se viu antes” e que o Hamas “será esmagado”. Chamam a Israel a “única democracia do Médio Oriente”, quando esta é uma das que possui maior armamento nuclear, que todos os anos é financiado em bilhões de dólares pelos Estados Unidos, que já prometeram apoio total a Israel.
Por cá, órgãos de comunicação como o Fumaça ou o Setenta e Quatro têm produzido peças interessantes sobre a Palestina, onde já entrevistaram várias pessoas palestinianas a viver em Portugal, algumas delas que já estiveram presas na faixa de Gaza. A comunidade palestiniana em Portugal também não se revê nas posições do Hamas, uma vez que defendem o direito à resistência à ocupação e não o terrorismo. Já ocorreram duas concentrações uma no Largo Camões e outra no Martim Moniz em solidariedade com o povo palestiniano.
Carlos Moedas já acusou injustamente o Bloco de Esquerda de “racismo” por supostamente não condenar o ataque do Hamas, algo já comprovado como falso numa intervenção de Joana Mortágua no Parlamento. O ódio sem contexto à esquerda em conflitos internacionais já não é novidade.
O caminho para a paz só pode começar por uma via diplomática com um cessar-fogo, com o fim do apartheid israelita e com o direito da Palestina à sua autodeterminação, como defende a ONU. Esta é uma guerra que não vai salvar a vida de nenhum palestiniano ou israelita, só vai colocar em ainda maior risco a segurança no Médio Oriente. A nós cabe-nos lamentar as vítimas inocentes dos dois lados e lutar por uma solução pacífica. A Palestina vencerá!
“Onde há opressão, haverá resistência” – Assata Shakur