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Palavras de Ferro

Ferro Rodrigues não é José Sócrates. O antigo secretário-geral do PS fala mais claro e por isso vale a pena ouvi-lo.

Ferro Rodrigues não é José Sócrates. Para este já se sabe que “uma redução substancial” da taxa social única, com que se comprometeu com o FMI, significa “talvez uma pequena redução” antes das eleições e tudo o que FMI quiser no dia seguinte às eleições. Mas o antigo secretário-geral do PS fala mais claro e por isso vale a pena ouvi-lo.

Em sucessivas declarações, Ferro Rodrigues vem defendendo, com grande preocupação, um governo de maioria PS/PSD. Disse ele ao Diário Económico de 19 de Maio que [para aplicar o acordo com a troika] “vai ser necessário um governo de maioria” e acrescenta mesmo “e tudo está a caminhar para que um governo de maioria tenha de reunir o PS e o PSD ou o PSD e o PS”. Declarações semelhantes fez no debate com o cabeça de lista do PSD por Lisboa, realizado na TVI24.

Ou seja, a proposta de Ferro Rodrigues é aplicar o acordo com a troika e constituir um Governo de bloco central com o PSD. Não coloca nenhuma questão a um acordo que significa um tremendo agravamento das condições de vida da maioria do povo português e o empobrecimento do país, lançado na recessão. Apenas expressa uma vaga esperança que a UE e o FMI “tenham apreendido” com os fracassos da Irlanda e da Grécia. Ele que sabe bem que o acordo para Portugal é a repetição do mesmo tipo de planos. E a alternativa política é... levar o PSD para o Governo. Para quê? Para aumentar no executivo a pressão “radical de direita” de que se queixa?

Sabe-se que pôr em causa o acordo com a troika, defender uma auditoria da dívida e a sua renegociação não é simples e tem riscos políticos, perante a forte chantagem da UE e dos poderosos do país. Mas é a única opção séria para combater a bancarrota social e enfrentar uma reestruturação inevitável imposta pelos credores, mais tarde e em muito piores condições para o país, empobrecido pelo aprofundamento da crise.

Para um país que já tem um desemprego brutal e vive sob a ameaça do seu agravamento, ultrapassando o milhão de desempregados, aceitar um acordo que lança a economia numa maior recessão é um suicídio, sobretudo se o desemprego jovem for elevado, como é o caso do nosso país.

O desemprego pode ser enfrentado, a precariedade pode ser combatida, o país pode enfrentar a situação difícil em que se encontra, mas para isso precisa de soluções de justiça fiscal, de justiça social, de justiça económica e isso só se consegue em rotura com o acordo com a troika e com as políticas dos que assinaram o acordo sejam eles o PS, o PSD ou o CDS.

Nestas eleições é preciso dar continuidade ao protesto que se fez ouvir em 12 de Março contra a precariedade, dar força ao combate de quem não quer viver pior que os seus pais, lutar por um futuro que não seja a emigração forçada, de quem é obrigado a fugir do país por falta de saída profissional e de emprego, por ausência de perspectivas e de esperança. O voto no Bloco é isso mesmo: a esperança de mudar de futuro.

Sobre o/a autor(a)

Editor do esquerda.net Ativista do Bloco de Esquerda.
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