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Os rankings são um vírus

Os rankings pouco trazem de novo. Os dados fornecidos pelo Ministério da Educação permitem leituras muito mais interessantes do ponto de vista social e pedagógico, e é isso que nos propomos fazer neste texto.
Foto de Paulete Matos

Os rankings pouco trazem de novo. Ano após ano, as mesmas escolas disputam os primeiros lugares, cumprindo a profecia de que quem se encontra no topo da pirâmide social dificilmente dará lugar a outros. Ano após ano, são publicados bons textos a desmontar a lógica dos rankings, que pegam num indicador isolado (o resultado em exames nacionais) e o transformam em instrumento de marketing. Os dados fornecidos pelo Ministério da Educação permitem leituras muito mais interessantes do ponto de vista social e pedagógico, e é isso que nos propomos fazer neste texto.

Olhemos para o caso específico de Lisboa. Nada de novo, se a lista for ordenada de acordo com os resultados dos exames do 9.º ano. Mais uma vez, as escolas dos lugares cimeiros estão situadas nos bairros de contexto socioeconómico favorecido, nas zonas privilegiadas da cidade. Aqui as elites reproduzem novas elites - nos 20 primeiros lugares, só há duas escolas públicas. E continuamos a verificar, sem surpresa, que são as escolas situadas em territórios desfavorecidos, com altas taxas de ação social escolar e pais com baixa escolaridade, que mais dificilmente conseguem fazer uma inversão da tendência e ter bons resultados académicos.

Continuamos também a verificar, contrariando as indicações do Ministério da Educação e os lugares comuns ouvidos aqui e ali, que a retenção é um instrumento usado e abusado. Nas escolas públicas da capital, 11,5% dos alunos são retidos logo a partir do 2.º ano. Esta taxa é de 15% no 2.º ciclo e desce ligeiramente, para 13,5%, no 3º ciclo. Também neste indicador Lisboa é exemplo pelos piores motivos: a taxa de retenção nacional no 2.º ano é de 6%, 5,5% no 2.º ciclo, e 7,7% no 3.º Ciclo. Ou seja, chumba-se muito mais em Lisboa do que na média do resto do país. Obviamente, é nas escolas com piores resultados académicos que a taxa de retenção é maior; há, porém, escolas que contrariam essa aparente inevitabilidade, como o Agrupamento de Escolas Patrício Prazeres, com uma população de aproximadamente 30% de alunos oriundos de outros países, e com um trabalho de integração notável, combinado com baixas taxas de retenção a nível de 1.º ciclo.

Aliás, se alterarmos a nossa análise dos dados, e olharmos para o indicador que mede o resultado da escola face à média nacional no triénio 2016-2018i, verificamos que o mais interessante destes rankings não é o que está à vista no topo e no fundo da tabela, mas todo o investimento pedagógico que se esconde nos lugares do meio. Percebemos que há locais onde se faz um trabalho que vai muito além da sala de aula, com os alunos e as suas famílias. Escolas como a Escola Básica Fernando Pessoa - que fica em primeiro lugar neste ranking alternativo -, ou a Escola Básica e Secundária Josefa D’Óbidos, por exemplo, conseguem superar os resultados das suas congéneres em 12% e 9%, respetivamente.

Os dados em análise nos rankings publicados hoje reportam-se a 2019, mas parecem muito mais distantes neste final do ano letivo. O motivo é óbvio: a escola que a pandemia impôs não tem nada a ver com a realidade que descrevemos até agora

Os dados em análise nos rankings publicados hoje reportam-se a 2019, mas parecem muito mais distantes neste final do ano letivo. O motivo é óbvio: a escola que a pandemia impôs não tem nada a ver com a realidade que descrevemos até agora. Os alunos foram afastados do espaço escolar, do contacto direto com os pares e com os professores, e, em muitos casos, dos próprios meios logísticos necessários para participar nas atividades letivas. O #EstudoEmCasa foi um esforço, tremendo e bem conseguido, de contornar um problema estrutural: um levantamento efetuado por dois economistas revelou que perto de 50 mil alunos não tinham acesso à internet – um direito considerado essencial pela ONU. Nestas condições, todo o trabalho feito pelas escolas junto das comunidades foi colocado em causa.

Mas será que estamos assim tão distantes do contexto de 2019? Não são precisamente os alunos que já registavam os piores resultados nos exames nacionais, as mais altas taxas de retenção, o maior afastamento da escola precisamente aqueles que se viram subitamente privados do contexto escolar? Não são precisamente os agregados familiares mais pobres, com qualificações mais baixas e piores expetativas aqueles que se viram impedidos de acompanhar ao ensino à distância que consubstanciou o 3.º período deste ano letivo? Não são precisamente as escolas que já recebem os alunos com menor apoio familiar aquelas que se viram mais condicionadas na aprendizagem que proporcionaram, a partir do momento em que ela passou a depender dos meios disponíveis em casa dos alunos?

Por outras palavras, não foi a pandemia que gerou a desigualdade profunda que atravessa o nosso sistema educativo; ela só agravou e pôs ainda mais a nu uma realidade que não desaparecerá se assumirmos que basta abrir as portas das escolas para que elas funcionem como espaço de oportunidade e igualdade. Mais do que diagnosticar essa desigualdade até transformá-la num mero argumento noutras lutas, é preciso combatê-la em todas as suas vertentes. 

Neste contexto, a publicação de rankings é ainda mais perversa e absurda do que nos outros anos. Porque nunca é demais sublinhar que não faz sentido comparar realidades incomparáveis, nomeadamente escolas em que os pais têm uma média de escolaridade de 15 anos com outras em que esta não vai além dos 6. Sobretudo quando essas realidades se tornaram ainda mais distintas, e tudo leva a crer que isso se reflita em eventuais rankings futuros.  

Lisboa é um bom exemplo: é uma cidade de contrastes num território absolutamente desigual, com nichos homogéneos que reproduzem e vincam as suas características, onde as populações que vivem isoladas nas suas ilhas, seja no Restelo ou no Vale de Alcântara. Se queremos que as escolas vão para além do bairro, então o bairro tem de ser feito de todos. Se não queremos que haja escolas dos rankings vs. escolas sem computador, então podemos começar por não fomentar a elitização de umas à custa da estigmatização das outras.

É óbvio que o que está verdadeiramente em casa é sobretudo do foro urbanístico; mas podemos começar por apagar as linhas invisíveis das áreas de influência dentro de cada agrupamento, que separam as escolas “boas” das “más” logo no primeiro ciclo. Não há nada que justifique que no mesmo agrupamento haja a escola “dos ciganos” e a(s) escola(s) “dos rankings”. A escola tem de ser o local em que se constroem cidadãos à imagem da sociedade que queremos. Com todos e para todos. Agora, mais do que nunca.

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