Os novos desertos e os negócios da energia

porAlda Macedo

22 de outubro 2024 - 15:26
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Faz falta um Orçamento que perceba o que a ministra do Ambiente não percebe: que em matéria de descarbonização da economia, não basta enunciar intenções e entregar o ouro na mão dos privados. É mesmo preciso investir.

No rescaldo dos devastadores fogos florestais deste verão, que foi o verão mais quente alguma vez registado globalmente, e agora, outono adentro, no centro da ocorrência de tempestades recorrentes, que se devem ao aquecimento da água do mar, há inevitavelmente um conjunto de problemas com os quais é preciso lidar da única maneira sustentável que é a da defesa da vida das pessoas e da recuperação dos ecossistemas, em vez da defesa dos negócios. Falo, em particular, de dois problemas: a gestão florestal a par da descarbonização da produção de energia.

O exemplo da Central Solar de Tábua, no concelho de Oliveira do Hospital, é um dos mais exemplificativos de como uma agenda, transição energética, e outra, recuperação da floresta, têm que ser encaradas de forma complementar. Esta central pertence ao grupo Greenvolt. A Greenvolt, subsidiária do grupo Altri, pretende ser um dos maiores produtores de energia verde no país.

Central Fotovoltaica de Tábua
Central Fotovoltaica de Tábua.

Não sendo a maior central do país, glória que pertence ao parque fotovoltaico da Azambuja que é propriedade da EDP, a central de Tábua conta com 90 mil painéis solares fotovoltaicos, e tem a perspetiva de vir a gerar 60 GWh por ano. Para a instalação desta central, foi abatida uma larga extensão de floresta de eucalipto. Em seu lugar, ergue-se hoje um vasto deserto cujas dunas são feitas de células fotovoltaicas.

Na análise deste caso é preciso tomar em consideração diferentes perspetivas:

O limite temporal de 2050 para atingir neutralidade carbónica, conforme o compromisso assumido pelos estados europeus – o “green deal”, é já daqui a muito pouco. Isso implica necessariamente, entre outras coisas, uma mudança radical no modo como produzimos energia.  A transição para as fontes renováveis é uma urgência e passa por combinar uma diversidade de fontes renováveis, particularmente eólica, biomassa e fotovoltaica.

Em segundo lugar, é graças à fotossíntese que a floresta é um sumidouro natural de carbono pela atividade das árvores, como dos matos rasteiros. A quantidade de carbono sequestrado na floresta depende da qualidade do solo, das condições de humidade e do tipo de vegetação. Um carvalho adulto pode sequestrar em média, 22kg de CO2 por ano. Uma floresta pobre, como uma floresta de eucalipto, que era o que existia em Tábua, precisa de ser melhorada, de preferência com espécies autóctones, mais adaptadas às condições de clima e solo local.

O que não precisa é de ser abatida para dar lugar a manchas gigantescas de painéis fotovoltaicos. Esta é uma operação que não faz qualquer sentido a não ser para empresas como a Greenvolt ou a EDP.

Em 2023, a EDP aumentou os seus lucros em 952 milhões de euros, o que corresponde a mais 40% do que no ano anterior, graças ao negócio de produção e venda de eletricidade, particularmente no mercado ibérico. A Greenvolt, por seu lado, que teve em 2023 uma quebra acentuada nos seus lucros (resultado de operações em Inglaterra e Polónia), registou, contudo, um aumento de rendimentos operacionais, na ordem dos 59,1%. Para as empresas, tudo se resume a operações de mercado e de quanto vale, nos mercados internacionais, a sua capacidade instalada de produção.

É a prioridade ao negócio que degrada o valor essencial do solar fotovoltaico, o qual reside na possibilidade de incorporar com segurança, na rede de distribuição, a energia proveniente da microgeração e minigeração. O solar fotovoltaico permite responder a todo o tipo de necessidades, em horas diurnas, quando a eletricidade é mais cara, e adapta-se facilmente ao tipo de instalação a que se destina.

Há muitos quilómetros quadrados de telhados, em habitações, fábricas, hospitais, escolas, museus, edifícios públicos e privados, da mais variada natureza, que podem albergar painéis fotovoltaicos e prover a uma percentagem muito relevante de consumos de eletricidade. Não é preciso abater floresta. Só é preciso substituir a lógica capitalista de exploração do negócio da venda de eletricidade por uma lógica de prestação de um serviço essencial à vida, ao conforto das pessoas e à economia. Essa é a única maneira de combater a pobreza energética.

Para isso faz falta um outro Orçamento do Estado, que não este que está proposto; faz falta um Orçamento que perceba o que a ministra do Ambiente não percebe: que em matéria de descarbonização da economia, não basta enunciar intenções e entregar o ouro na mão dos privados. É mesmo preciso investir. Investir em migrar tudo quanto é edifício público, seja de serviço ou habitacional, para edifício auto-sustentável em matéria de energia. É preciso investir no apoio às autarquias para que estas possam operar a transição de todo o seu edificado. E é também preciso levar por diante a defesa da floresta, de acordo com as melhores práticas de gestão florestal.

Em suma, é preciso um orçamento que é incompatível com a política de direita de promoção do negócio, mesmo quando este resulta em fazer crescer o deserto.

Alda Macedo
Sobre o/a autor(a)

Alda Macedo

Professora
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