Quem ligar a televisão nestes dias para ver o telejornal terá de assistir a um desfilar de notícias sobre a participação portuguesa nos jogos olímpicos, acompanhada de lamentações pelas medalhas não ganhas. O discurso nacionalista alia-se ao individualismo para criar um ambiente de competição feroz, acompanhado de apelos ao consumo. Qualquer semelhança entre isto e o desporto é pura coincidência.
Os jogos olímpicos modernos surgiram por iniciativa do Barão de Coubertin, que conseguiu juntar aristocratas de várias partes do mundo ocidental para criar o Comité Olímpico Internacional (COI), em 1894. Quando os primeiros jogos se realizaram, em 1896, na cidade de Atenas, apenas uma elite proveniente dos países mais ricos do mundo pôde participar. As mulheres foram excluídas e o estatuto de amador foi usado como arma de arremesso contra os trabalhadores para os impedir de participar.
Os dois jogos seguintes, de Paris (1900) e St. Louis (1904), tiveram uma participação maior mas continuaram a ser fortemente elitistas. Emblematicamente, ambos os jogos se realizaram em conjunto com feiras comerciais, mostrando desde cedo os laços próximos entre as olimpíadas e o grande capital.
O COI foi entretanto crescendo em importância e orçamento mas nem por isso passou a ser menos elitista ou mais democrático. Ainda hoje a escolha de novos membros é feita pelos membros presentes, assegurando que o COI permanece sempre dentro dos mesmos círculos de poder. A realeza europeia está presente em força, e cinco dos seus oito presidentes contavam com títulos nobiliárquicos.1 Apenas em 1982 o COI deixou de ser exclusivamente masculino, para passar a ser quase exclusivamente masculino.
Tal como é um erro pensar que os jogos olímpicos são um evento desportivo, também o é pensar que o COI é uma associação sem fins lucrativos com o fim de promover o desporto. Na realidade, trata-se de uma poderosa e riquíssima multinacional, que detém o exclusivo dos direitos televisivos sobre a transmissão dos jogos olímpicos. Tal como a FIFA e a UEFA, a COI move governos e autarquias, que competem entre si para ver quem consegue esbanjar mais dinheiro em eventos elitistas e obras públicas que não passam de elefantes brancos.
Apesar de todas as promessas de promoção da paz no mundo, o COI também não se tem distinguido pelo respeito dos direitos humanos, tendo pactuado sistematicamente com ditaduras. As olimpíadas de 1936, em Berlim, foram usadas por Hitler como manobra de propaganda. O COI escolheu fechar os olhos à carnificina da ditadura, tal como o fez em 1968 com a ditadura mexicana, em 1988 com a ditadura sul-coreana e em 2008 com a ditadura chinesa.2
Como bem resumiu, Mike Marqusee, autor de vários livros sobre desporto, “O pódio olímpico é um pacote simbólico: excelência individual ao serviço do estado-nação sob o domínio do capital multinacional.”3 Uma frase acertadíssima para descrever o momento em que se gastam mais de nove mil milhões de euros num Reino Unido dilacerado pelas medidas de austeridade para organizar uns jogos olímpicos “verdes” cujo parceiro para a sustentabilidade é a BP, uma das maiores criminosas ambientais do mundo.
A promoção do desporto como meio de estimular estilos de vida saudáveis e o convívio entre pessoas deve ser um dos objetivos centrais de uma sociedade. Mas isso não se confunde com gastar fortunas em mega-eventos destinados a atletas pagos/as a peso de ouro e com bilhetes à venda a preços proibitivos.
Defender o direito ao desporto passa por defender o investimento em equipamentos desportivos públicos, abertos ao público e espalhados por bairros, escolas e locais de lazer, assim como em aulas de ginástica e outras atividades desportivas orientadas para toda a gente, incluindo crianças, idosas/os e pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida. Pelo contrário, investir na formação de atletas para que possam ganhar medalhas nos jogos olímpicos, como se isso significasse alguma coisa para o país, é reforçar o elitismo que enche os cofres dos ginásios privados e exclui grande parte da população da prática desportiva. Tal como tantas outras coisas importantes para uma boa vida em sociedade, também o desporto tem de ser recuperado das garras do capitalismo.
1 Lista de membros do COI em http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_members_of_the_International_Olympic_Committee#Current_members_of_the_International_Olympic_Committee
2 Zany Begg, “What the Olympic Games really celebrate”, http://www.greenleft.org.au/node/21650
3 Mike Marqusee at the Olympics: 'Individual excellence at the service of the nation-state and multinational capital', http://links.org.au/node/2975