Os fautores da guerra

porJoão Vasconcelos

23 de maio 2024 - 22:23
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As recentes declarações do Almirante Gouveia e Melo suscitam uma grande perplexidade e alarme social no país, revelando-se bastante perigosas. Refere ele que é “importante desenvolver rapidamente um forte complexo militar e industrial europeu”.

As recentes declarações do Almirante Gouveia e Melo, Chefe do Estado-Maior da Armada, suscitam uma grande perplexidade e alarme social no país, revelando-se bastante perigosas. Foi no passado dia 12 de maio, em Aveiro, ao referir que as Forças Armadas devem estar preparadas, em estado de prontidão, em termos de reservas humanas e materiais para o que aí vem. E que há a possibilidade da Marinha entrar em “operações reais”, que é “importante desenvolver rapidamente um forte complexo militar e industrial europeu, olhar para o sistema de recrutamento e conscrição generalizada e prepararmo-nos para reforçar de vez o pilar europeu da NATO”. E mais à frente sublinha que “é tempo de perceber que não haverá manteiga nas nossas mesas sem canhões que as garantam”.

A pretexto da invasão ilegal e criminosa da Ucrânia pela Rússia imperial de Putin, são diversas as vozes que pretendem atirar ainda mais gasolina para as labaredas de uma guerra cada vez mais destruidora e mortífera que grassa no leste da Europa e que pode alastrar a outras áreas do planeta com uma dimensão devastadora. Há um apelo frenético e insensato para a militarização da sociedade europeia e apostada em projetar uma economia de guerra. Agitam-se fantasmas do passado, mais próprios da “guerra fria”, de que “vêm aí os russos” invadir a União Europeia e que é preciso alargar e reforçar a NATO – o tal pilar de segurança – para os combater. Logo, torna-se imperioso recrutar cada vez mais jovens e reintroduzir o serviço militar obrigatório nos países onde foi abolido, como no nosso país.

Estes jovens irão transformar-se “em carne para canhão” ao serviço dos senhores da guerra, do imperialismo militarista norte-americano e europeu, e dos interesses do complexo militar-industrial dos E. U. A. É uma realidade que esta gente se encontra a trabalhar afincadamente para a guerra, funcionando a NATO como o braço armado do Tio Sam. Os governantes dos países europeus, incluindo Portugal, aumentaram a sua subserviência abjeta e rastejante aos ditames e interesses norte-americanos que querem continuar a dominar a geopolítica e a geoestratégia a nível mundial, procurando eliminar, mesmo que seja com o recurso à guerra, qualquer outra potência que lhe faça frente. Hoje é a Rússia e depois da derrota desta, amanhã será a China. O que conta é o controlo das matérias-primas, das fontes de energia e das rotas de abastecimento a nível mundial.

Todos eles, incluindo muitos comentadores, políticos e militares da nossa praça afinam pelo mesmo diapasão e procuram influenciar a opinião pública – “é preciso preparar o país para a guerra”, dizem de forma sub-reptícia ou descaradamente, sem medir as consequências. São os fautores da guerra, como o Almirante Gouveia e Melo.

Os governos dos Estados Unidos da América e da União Europeia se quisessem, já tinham acabado, ou tentado acabar com a guerra na Ucrânia, forçando a Rússia a sentar-se à mesa das negociações. Uma Conferência de Paz é o que se impõe com a paragem imediata da guerra e o início das negociações tendo como princípio a autodeterminação e a independência da Ucrânia, como membro de pleno direito da Organização das Nações Unidas. Esses governos não só impedem as negociações para a paz, como fomentam cada vez mais a guerra, que a Rússia aproveita para a intensificar. Estão a ir ao encontro dos desígnios imperiais de Putin.

Os imperialismos geram e alimentam-se da guerra e esta só termina com a derrota de um dos contendores. O que a NATO pretende é a derrota estratégica da Rússia e pouco se interessa pela sorte e destino do povo ucraniano e da própria Ucrânia. Agrava-se a destruição de aldeias, vilas e cidades deste país e o sofrimento e morte dos seus cidadãos. Os E. U. A. e a NATO não só pretendem a derrota estratégica, mas também a desintegração da própria Rússia, para assim abocanharem as riquezas e os recursos naturais deste vasto território, e ficarem frente a frente à China continental.

Estados Unidos e Europa que alimentam e incentivam uma guerra de extermínio contra o povo palestiniano pelos governantes civis e militares genocidas de Israel. Caiu a máscara de forma retumbante aos governos da União Europeia pelo apoio e armas que continuam a dar a Israel para exterminar o povo de Gaza. Se exigem e bem que a Rússia seja condenada e responda pelos crimes de guerra praticados, porque não fazem mesmo em relação a Israel? Uma dualidade de critérios inaceitável e criminosa. Não passam de uns cínicos e hipócritas a toda a prova. Os pequenos e grandes fautores da guerra intensificam-se e encontram-se por todo o lado.

João Vasconcelos
Sobre o/a autor(a)

João Vasconcelos

Professor. Doutorado em História Contemporânea.
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