Os empresários nossos amigos

porRui Pedro Moreira

10 de julho 2022 - 22:16
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O tom mainstream é que os empresários portugueses fazem tudo o que está ao seu alcance para que a economia funcione. Farão mesmo? São assim tão altruístas como os "pintam"?

Num país com salários miseráveis e desigualdades tão obscenas que fazem corar (ou deviam) qualquer barão das corporativas entidades que supervisionam o mercado de trabalho, há sempre espaço para (continuar) a campanha de "aqueles que estão ali no café andam a viver à minha custa". Vamos lá ser sérios, pode ser?

O que me levou a escrever estas linhas foi uma reportagem recente no Público, "Turismo: "Andamos a tirar trabalhadores uns aos outros" (acesso pago), em que se olha o mercado de trabalho transversalmente, transviadamente, sem avaliar tudo, com contraditório, com visões alternativas, com casos com (outros) casos concretos. Parece estranho, mas trabalhando em Portugal, nestes "novos tempos", as pessoas sujeitam-se a piorar a sua vida (que já vem de um patamar tremendo de incerteza e rumo ao desconhecido). Este trabalho do Público é mais uma forma habilidosa de manipular a opinião pública, nunca assumindo uma única crítica a quem emprega, tratando os empresários (os ouvidos, não generalizando) como incompreendidos, quase como vítimas, faltou apenas dizer que dão o corpo às balas, entregam a camisa que trazem no corpo e fazem juras de amor ao próximo a cada 3 segundos.

Está toda a gente a par do que aconteceu desde que o Covid faz parte das nossas vidas, não está? Quantas pessoas ficaram sem emprego, quantos empresários despediram, sem apelo nem agravo, todos os trabalhadores precários num piscar de olhos? Vamos a factos: o popular lay-off simplificado foi usado como nunca — para "salvar" postos de trabalho, diziam, e mitigar a escalada do desemprego. Nada disso: foram iniciados mais de 700 processos de despedimento coletivo, dados do Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP) do Ministério do Trabalho. Em causa esteve um salto de quase 105% face aos 12 meses anteriores. Coincidências ou aproveitamento da situação? É claro que as pessoas foram empurradas para o desemprego. E porquê? Ou pânico, ou medo, ou calculismo, ou tudo junto, foram famílias inteiras atiradas para a berma da estrada. Estamos de acordo que as medidas do Governo PS foram manifestamente insuficientes, ou tardias?

Voltemos ao jornal: o tom mainstream é que os empresários portugueses fazem tudo o que está ao seu alcance para que a economia funcione. Farão mesmo? São assim tão altruístas como os "pintam"? Imagine-se o "absurdo" de pagar 1200€ por um funcionário e ter de fazer recrutamento a centenas de quilómetros de distância e ainda lhes garantir dormida num "contentor todo equipado". A certa altura, escreve o jornal, que "se antes da pandemia já faltavam cerca de 40 mil trabalhadores, em 2021 o chamado canal HORECA (hotelaria, restauração e cafés) perdeu 76.300 trabalhadores, dos quais 60.200 ligados à restauração e os restantes ligados ao alojamento turístico. E recuperá-los não está a ser fácil". Precisamente, é este o ponto: que confiança teria o empresário - se tivesse sido ele o despedido - para voltar a um lugar de onde saiu chamuscado? Só por exercício, imaginem que aquele/a que foi despedido antes tem agora um subsídio de desemprego de 700€ e ainda com 1 ano de validade. Quer dizer que ainda irá receber cerca de 8500€ até ao fim. Então, qual a lógica de aceitar um trabalho precário de 1200€ até setembro (4 meses, 4800€) e depois voltar a estar sem nada a que se agarrar? Não são contas simples? Se algum liberal me disser que aceita estas condições, prometo rezar uma Avé-Maria pelo Ellon Musk, um Pai Nosso pelo Jeff Bezos e ainda acendo uma velinha ao Cotrim de Figueiredo.

A parte da demagogia e desinformação continua pelo texto fora porque, dizem os empresários ouvidos, gostariam mesmo de pagar os tais 1200€ a portugueses mas como não os encontram têm de contratar imigrantes (brasileiros, espanhóis, nepaleses) e a minha questão é que tipo de contrato de trabalho é que lhes "oferecem", qual o vínculo, qual o vencimento, que benefícios? A sério, que já abandonaram a cultura do lucro rápido? Garantem, podem provar, que não abusam nos horários, nas folgas, na disponibilidade das pessoas? A sério que fazem todos os pagamentos sem ser "por baixo da mesa" e que cumprem a totalidade do pagamento das horas extraordinárias, mesmo na percentagem ridícula e mais baixa de sempre?

Com tantos milhões a circular e percentagens recordes de dormidas, hóspedes e consequentes receitas, alguma coisa poderia acontecer para adiar a Mostra Gastronómica de Santana? Pelos vistos, sim: a falta de trabalhadores

Esta retórica, que culpa os "malandros" que não querem trabalhar - além de um discurso xenófobo e manipulador - tem vindo a crescer, a ganhar adeptos e a servir de desculpa e argumento para a tomada de decisões que, muitas vezes, escondem a verdadeira história - não mentem mas ocultam (de uma forma muito habil). É relatado que na Madeira o inenarrável Miguel Albuquerque estava entusiasmadíssimo por recrutar mais uma série de estrangeiros para servir o selecto turismo madeirense. Com tantos milhões a circular e percentagens recordes de dormidas, hóspedes e consequentes receitas, alguma coisa poderia acontecer para adiar a Mostra Gastronómica de Santana? Pelos vistos, sim: a falta de trabalhadores. A razão é tão simples que vai custar a entender a bizarria a muitos "coletes azuis": então não é que os trabalhadores se recusaram a trabalhar 5 dias seguidos desde antes do almoço até de madrugada? E se recusaram, o que é que (não) estavam a oferecer? Foi por isso que tiveram de adiar a grande festarola em que o Governo da Madeira investiu 100 mil euros e, agora que remarcada, acomodaram uns horários decentes e só servirão refeições ao jantar. Foi uma opção assim tão difícil? Significa qualidade de vida para todos.

Num restaurante que frequento tive essa imagem, recentemente, quando o esforçado proprietário (que é o típico e clássico empresário que subiu a pulso, que começou do zero, todo ele é o espelho da experiência acumulada ao longo de uma vida de trabalho), outro dia dizia-me que o negócio estava a melhorar mas que não consegue fixar ninguém, nem a pagar 1000€. Fiz-lhe perguntas da praxe e tirei as minhas conclusões mas a perplexidade deste empresário tem a ver com os horários. Porque raio não podem trabalhar 2 períodos por dia, um das 12 às 15 e outro das 18 às 23? Eu contra-argumentava com o cansaço acumulado de 6 dias por semana, com o facto de trabalharem por turnos, com a dificuldade de conciliar o trabalho com a vida pessoal e assistência à família mas a resposta foi taxativa; "mas eles são putos novos, têm bom "cabedal", aguentam tudo!". É isso mesmo, é esta cultura e esta mentalidade que urge reverter.

Na verdade, o que está associado a todos estes problemas são as leis de trabalho que eternizam a precariedade

Na verdade, o que está associado a todos estes problemas são as leis de trabalho que eternizam a precariedade. Efectivamente, um patrão pode despedir mais simplesmente e mais barato mas mais tarde pode "pagar" por esse acto; de facto, o empregador pode fazer um contrato de trabalho por 6 meses e ter sempre o trabalhador eternamente à experiência, pagar a exorbitância do SMN e ainda cravar o Estado para subsidiar, mas arrisca-se que o trabalhador perceba o "amor" que recebe; podem os patrões clamar aos sete ventos que precisam de flexibilizar o "mercado", mas têm de saber viver com isso quando o trabalhador se cansa de tanta incerteza, injustiça e exploração. Se não se importam de os fazer passar por escravos, espantam-se com quê? E nem me deixo iludir pela mensagem subliminar, até insultuosa, que trespassa nos que acusam os "protestantes" de "cuspirem no prato que lhes dá de comer". A questão é mesmo essa: que prato é esse, que comida é que está a ser servida? Se estiver fora de prazo, temos o direito de questionar ou é mesmo "comer e calar"? Podemos questionar os ingredientes ou se for sempre arroz com feijão já é uma dádiva dos céus?

Haveria interesse, digo eu, em perceber como se move o "empresário", o/a que tem muito sucesso e aparece sempre como herói, e dar uma vista de olhos à listagem dos grupos económicos que receberam largos milhões de euros para compensar a subida do salário mínimo em 2021. Acreditem que encontrarão alguns ilustres nomes, com suportes financeiros bem robustos, que - a menos que provem o contrário - não precisavam daquele quinhão para sobreviver. Façam um jogo comigo e imaginem que têm um baú com milhares de nomes de empresas e metam lá a mão e tirem quatro papelinhos, à sorte. A mim saíram os CTT, a Intelcia, a Eurest e a Randstad. E a vocês? A sério que vos saiu o Modelo Continente, a Armatis, o Hospital da Luz ou a Staples? Dará para acreditar que tão prestigiadas e abastadas empresas e extraordinários empresários/as, esses bem formados/as e afamados/as gestores, andam de mão estendida a sacar dinheiro ao Estado?

A história já demonstrou vezes sem conta - agora é Mário Ferreira, já tivemos Berardo e Isabel dos Santos, Espíritos Santos & Cª Lda, LF Vieira mais aquele senhor do robalo, ilustres e comendadores que fizeram assaltos à descarada e deram autênticos saques aos cofres das empresas, estratégicas ou não, enfim, de quantas histórias se lembram de trabalhadores a ficarem descalços porque o local onde estavam, entre sexta e segunda, ficou vazio ou mudou de nome, em quantas vezes e situações revelaram, os tais empresários, puro desrespeito e desinteresse total pelo futuro dos trabalhadores? Depois disto tudo, depois de tudo o que já se sabe e o que está para vir, ainda acreditam na história que o Pai Natal foi ao circo com o coelhinho e não o papou no fim?

Rui Pedro Moreira
Sobre o/a autor(a)

Rui Pedro Moreira

Ativista laboral
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