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Os dois paradoxos de Ellsberg

Ellsberg foi o economista e ex-militar que abalou as bases tanto da ortodoxia económica como da guerra imperialista.

Nestes tempos em que enfrentamos mais uma crise bolsista e em que Julian Assange, a cara do Wikileaks, é perseguido criminalmente por ter divulgado documentos secretos do governo dos EUA, vale a pena lembrar a história de Daniel Ellsberg, o economista e ex-militar que abalou as bases tanto da ortodoxia económica como da guerra imperialista.

Ellsberg estudou economia em Harvard, tendo-se juntado à RAND Corporation, um think-tank com ligações ao exército dos EUA, onde trabalharam muitos economistas famosos. Aí fez parte de um grupo que estudava teoria da decisão, liderado por John von Neumann, do qual saiu a teoria da utilidade esperada, em 1944.

Com von Neumann, a escolha racional em contexto de incerteza é formulada como a que, de entre as opções disponíveis, oferece um maior ganho esperado, tendo em conta as probabilidades relevantes. Esta teoria foi extensamente usada pelo Pentágono para o planeamento de guerras, tendo-se tornado também num pilar da ortodoxia económica. Os modelos de avaliação de risco, que levaram tantos investidores a comprar activos tóxicos, dão-nos um exemplo recente dos estragos que a teoria causou.

A principal falha da teoria da utilidade esperada é ignorar a distinção entre risco e incerteza, dada duas décadas antes pelo economista Frank Knight: podemos falar de risco quando podemos atribuir uma probabilidade a cada estado do mundo e de incerteza quando não é possível saber qual a probabilidade de obter um resultado de uma dada acção. Quem aposta o seu dinheiro na roleta russa, por exemplo, pode calcular com exactidão a probabilidade de ganhar o primeiro prémio. Mas quem compra um activo sem saber o que está a comprar, assumindo que a classificação dada pela agência de rating está correcta, não tem como calcular a probabilidade de ganhar ou perder dinheiro. Ou seja, a chamada “economia de casino” é instável precisamente porque não funciona como um casino.

Ellsberg foi o primeiro a desenvolver uma experiência que demonstra como esta falha leva-nos a criar modelos irrealistas sobre a forma como a mente humana funciona em contexto de incerteza. Suponhamos que temos uma urna com 30 bolas vermelhas e 60 bolas pretas e amarelas. Não sabemos quantas quantas bolas pretas ou amarelas existem e as bolas estão misturadas aleatoriamente. De cada vez que é retirada uma bola da urna, a mesma bola é colocada posteriormente de volta na urna, de forma a que a composição da urna nunca muda.

As pessoas que fazem parte da experiência têm então de escolher entre duas apostas:

A: Receber 100 dólares se for retirada uma bola vermelha;

B: Receber 100 dólares se for retirada uma bola preta.

A seguir, as mesmas pessoas têm de escolher entre as seguintes apostas:

C: Receber 100 dólares se for retirada uma bola vermelha ou amarela;

D: Receber 100 dólares se for retirada uma bola preta ou amarela.

O que se verifica é que a maioria das pessoas escolhe A e D, o que constitui uma escolha irracional. Vejamos porquê.

Se alguém escolhe A sobre B, será porque acredita que retirar uma bola vermelha é mais provável que retirar uma bola preta. Mas se alguém escolhe D sobre C, é porque acredita que retirar uma bola vermelha é menos provável que retirar uma bola preta. As duas escolhas são, portanto, inconsistentes.

O que o denominado Paradoxo de Ellsberg demonstra é que existe uma aversão à ambiguidade e que as pessoas preferem ganhos certos a ganhos incertos. Às apostas A e D conseguimos associar uma probabilidade de ganhar os 100 dólares (1/3 e 2/3, respectivamente), mas o mesmo não se passa com as apostas B e C.

Este resultado foi suficientemente importante para ser publicado no Quarterly Journal of Economics, em 1961. As suas implicações para a invalidade da teoria da utilidade esperada foram, contudo, ignoradas, e esta teoria continua a ser ensinada nas faculdades como se nada se tivesse passado.

Mas Ellsberg foi ainda responsável por revelar um outro paradoxo: o de que as democracias ocidentais não são tão democráticas quanto isso, na medida em que a legitimidade dos governos é frequentemente baseada na supressão de informação e manipulação da opinião pública. A demonstração deste paradoxo da democracia surgiu no momento em que, graças aos seus contactos com o exército dos EUA, o economista conseguiu ter acesso a um conjunto de documentos sobre a guerra no Vietname que mostravam como o seu governo insistia em sacrificar soldados e civis numa guerra que admitia já estar perdida.

O que Ellsberg viu foi suficiente para o convencer a ir a reuniões de movimentos pacifistas. Numa reunião, em 1969, assistiu a um testemunho de um soldado que estava disposto a assumir publicamente a sua posição anti-guerra, sabendo que isso lhe custaria a liberdade. Ellsberg ficou tão impressinado com a coragem do soldado que decidiu também meter mãos à obra. Durante várias noites, fotocopiou centenas de páginas de documentos secretos do Pentágono, tendo depois entregue tudo a alguns senadores com posições anti-guerra.

A expectativa de Ellsberg era a de que um senador submetesse ao Senado os documentos secretos, sabendo que, pela lei dos EUA, um senador não poderia ser responsabilizado criminalmente por algo sucedido no exercício do seu cargo. Dessa forma, esperava poder expor a verdade sem correr o risco de ser preso ou morto. Mas nenhum senador aceita o desafio.

Apenas em Junho de 1971 os documentos se tornam públicos, quando um jornalista do New York Times quebra uma promessa feita a Ellsberg e publica alguns excertos. Quando uma ordem do tribunal suspende a publicação deste jornal, Ellsberg reage enviando os documentos para o Washington Post e vários outros jornais. Dias depois, o New York Times vê consagrado pelo Supremo Tribunal o seu direito de publicar o material e Ellsberg entrega-se à polícia.

A Administração Nixon tudo faz para denegrir a imagem de Ellsberg e para o prender para a vida. Mas a acusação contra ele tinha sido construída com base em provas obtidas ilegalmente e Ellsberg sai em liberdade em 1973. Mais tarde, depois de os seus algozes terem sido sentenciados pelo seu envolvimento no escândalo Watergate, fica-se a saber que estes chegaram a planear o seu assassinato.

Daniel Ellsberg manteve-se até hoje fiel aos seus princípios, tendo sido uma das vozes activas contra a guerra no Iraque. Recentemente, tem sido uma das vozes que nos EUA denuncia a política terrorista do seu governo, que pretende prender quem denunciou os crimes de guerra mas não quem os praticou. É de pessoas assim que a democracia é feita.

A versão original deste artigo foi publicada no Mãos Visíveis (http://maosvisiveis.wordpress.com/)

Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
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