A obsessão

porMiguel Portas

24 de junho 2010 - 13:10
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Os governos não estão apenas a retirar as medidas de excepção. Estão a lançar uma cura de napalm sobre os Orçamentos de Estado e as economias.

Como vos explicar isto? A crise chega à Europa em Setembro de 2008. Ao longo de todo o ano de 2009 as suas consequências económicas e sociais são indisfarçáveis. Uma quebra na produção na casa dos 4 pontos percentuais e 5 milhões de novos desempregados na União falam por si. Ao longo de todo esse ano, a preocupação primeira dos governos foi com a salvação do sistema financeiro. 80 a 90 por cento dos recursos aplicados foi para aí que se dirigiram. Mas na Europa ainda "sobraram" 400 mil milhões de euros para "medidas anti-crise". Essas medidas explicam boa parte das diferenças entre 2009 e 1929. Na grande depressão do século passado, o Estado social era ainda uma aspiração do movimento operário. Na deste século, esse Estado encontra-se sob pressão, mas foi capaz de conter os efeitos mais destruidores da crise sobre a vida de milhões de pessoas.

São exactamente as chamadas "medidas anti-crise" que estão a ser retiradas em 2010. Umas sustiveram indústrias tão decisivas como a do sector automóvel; outras evitaram despedimentos com financiamento público de políticas de redução de horário de trabalho e/ou a sua conversão em formação profissional; finalmente, outras ainda reforçaram alguns dos programas sociais dos Estados, em particular os subsídios de desemprego e de apoio à pobreza. Nada disto chegou, nada disto foi socialmente equilibrado e repartido, mas ainda foi melhor do que nada.

Mas agora, em 2010, tudo está a mudar. Porquê? Porque o desemprego diminuiu? Não. As estatísticas são claras, continua a crescer. Porque a retoma é uma realidade? Não. No planeta, só Vital Moreira se arrisca a proclamar o fim da crise.

Na verdade, do ponto de vista da vida das pessoas, 2010 é um ano ainda mais negro do que o que passou. Os governos não estão apenas a retirar as medidas de excepção. Estão a lançar uma cura de napalm sobre os Orçamentos de Estado e as economias. Investimento público, despesa social, salários e pensões estão a ser sujeitos a dieta sem equivalente nas últimas décadas. Por bem menos, houve países que nos idos de 80 e 90 sufocaram da receita. Uma nova onda recessiva é mais do expectável antes de 2011.

Bem pode Barak Obama passar meia hora ao telefone com a senhora Merkel, que é quem na realidade manda na Europa, e pedir-lhe para "não pisar demasiado cedo o travão das medidas anti-cíclicas". A dama de ferro alemã não quer ouvir. Como não quer ouvir a esquerda que no seu parlamento sustenta que a principal medida contra a crise na Europa deveria ser o aumento dos salários dos trabalhadores alemães. A verdade é esta: em matéria de economia, o Conselho Europeu a mando alemão é como o Vaticano com José Saramago em assuntos de costumes: ambos professam ortodoxias. De nada se esquecem e jamais aprenderão.

Artigo publicado no jornal “Sol” de 25 de Junho de 2010

Miguel Portas
Sobre o/a autor(a)

Miguel Portas

Eurodeputado, dirigente do Bloco de Esquerda, jornalista.
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