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O vira do bloco central

O povo de esquerda já sabe que não há utilidade no voto que coloca o país dependente das vontades do PSD.

O concílio “laranja” foi parco em novidade. Entronizado Rui Rio nas diretas contra Rangel, o congresso que se seguiu não teve história. De realçar apenas a novidade de a oposição interna se ter rendido à ideia de viabilizar um Governo do PS. Se antes Rio era crucificado por tamanha heresia, os outrora opositores passaram a alinhar pelo mesmo diapasão numa escolha a que não são alheios os cálculos eleitorais. Afinal de contas, como gostam de dizer, o PSD é um partido de poder e o poder, para usar um eufemismo, exige muito pragmatismo. Apenas adiantaram que a disponibilidade se quer recíproca e pretendem ouvir de António Costa as mesmas declarações de amor ao bloco central.

A teoria de Rio não é nova, Ferreira Leite já a tinha anunciado em 2015, em nome de uma estabilidade contra radicalismos que o país sabe não existirem. A ideia pretende ser um simulacro de altruísmo para disputar eleitores incautos, mas, para lá do taticismo partidário, há intenções bem menos abonatórias.

A ideia de PS e PSD como fiéis depositários da confiança do regime é antiga. É a soberba de quem se acha dono da democracia, da elite para quem as eleições são toleradas desde que não resultem em mudanças a sério, que algo se altere na aparência para que na essência tudo continue na mesma. Esta ideia e a sua prática têm um nome de batismo, chama-se bloco central, e resumem-se aos favores, anuências e influências que se trocam entre os interesses instalados do costume. É a alternância sem alternativa para o país.

É por isso que, quando Rui Rio se diz contra o “sistema”, que quer afrontar “os interesses instalados” tudo soa a oco. É que os interesses instalados e o sistema dos negócios são, e sempre foram, a marca do bloco central e fator de atraso do país. Que Rio agora faça dessa escolha a base da sua estratégia não é motivo de espanto, a fragmentação da direita reforça essa vontade. É a melhor forma de reeditar o voto útil à direita e de mostrar como, face à ausência de credibilidade de uma vitória nas eleições, o PSD tem uma estratégia que pode reconquistar influência nas escolhas do país, mesmo que seja dando a mão ao PS.

Mas, se esse é o arranjinho de Rio para a aritméticas de poder, o conteúdo do programa político está cada vez mais próximo do que conhecemos pela mão do Chega. A julgar pelo que disse no discurso de encerramento do congresso do PSD, Rio acha que a culpa da falta de mão de obra não é dos salários baixos mas sim dos malandros que não querem trabalhar ou que a culpa da pobreza é dos pobres que se acomodam aos subsídios estatais. Ventura não tardou a saudar tamanha conversão de Rio. Com um pé no centrão e a boca no discurso de extrema-direita, ficamos na dúvida qual estará mais perto do coração de Rui Rio. A julgar pelo acordo que o PSD fez com o Chega nos Açores, a conclusão é que será o que lhe der mais jeito.

No entanto, não é menos relevante a reação do PS. António Costa, parecendo fazer tábua rasa dos preceitos constitucionais que lhe possibilitaram chegar ao Governo em 2015, fez saber que a escolha das próximas eleições é entre ele e Rui Rio. A ideia é uma falsidade: como já sabemos, as eleições legislativas elegem deputados e deputadas e não primeiros-ministros. Mas é verdade que estão em causa escolhas de governo e a vontade de virar as costas à esquerda para dar a mão ao PSD é o novo caminho que António Costa pretende. Para isso pede o voto útil para entregar os destinos do país aos humores do PSD, o bloco central agora pela mão do PS.

O voto útil morreu em 2015 quando as pessoas perceberam que todos os votos contam na eleição de deputados e que é das maiorias parlamentares que se fazem as escolhas de governo. Esta conclusão não é minha, foi repetida por diversos atores políticos de PS e PSD ao longo dos últimos anos, e até mesmo pelo primeiro-ministro. No entanto, quando o velhinho bloco central volta para nos ameaçar, ele tenta ressuscitar todas as táticas, mesmo as que já tinham passado à história.

Quando o caminho acelera para as eleições de dia 30 de janeiro, as escolhas vão ficando cada vez mais claras (no sentido de trazer à luz) e as alternativas para políticas de progresso também. E o povo de esquerda já sabe que não há utilidade no voto que coloca o país dependente das vontades do PSD.

Artigo publicado no jornal “Público” a 24 de dezembro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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