Enquanto a juventude do Bloco de Esquerda acampava em São Pedro do Sul, um outro acampamento, de jovens socialistas noruegueses, era atacado por um fanático de extrema-direita (passe o pleonasmo). Do ataque, que ocorreu em simultâneo com um atentado à bomba em Oslo, resultaram dezenas de mortos. Porque este não é um acto isolado, devemos reflectir seriamente sobre as suas consequências políticas.
A cronologia dos acontecimentos já diz muito sobre o que está em causa na reacção aos atentados. Enquanto o responsável pelos atentados ainda não era conhecido, um coro de “peritos” em terrorismo explicava na televisão que teria sido a Al-Qaeda a culpada, em retaliação pela participação da Noruega na guerra do Afeganistão. A comunicação social de direita não tardou em aproveitar a ocasião.
No Reino Unido, o Sun, tablóide sensacionalista de direita (outro pleonasmo), não hesitou em pôr na capa o título “O 11 de Setembro da Noruega”, com o subtítulo “O massacre da Al Qaeda”. Nos EUA, o Washington Post explicava como existia uma ligação clara ao jihadismo, enquanto no Wall Street Journal um editorial salientava como Ayman Al-Zawarihi, líder da Al-Qaeda, tem criticado duramente a Noruega nas suas comunicações públicas. Por cá, a TVI seguia a mesma narrativa.
A descoberta de que o responsável pelos atentados seria um jovem louro não demoveu quem pretendia aproveitar o pretexto para legitimar a vigilância e perseguição policial de que são alvo milhares de cidadãos sem qualquer ligação ao terrorismo, na sua maioria islâmicos, e as guerras no Iraque e no Afeganistão. Afinal, a Al-Qaeda poderia ter contratado um local, para levantar menos suspeitas. Como ironizou o comediante Stephen Colbert: “Só porque o assassino confesso é um cruzado anti-muçulmano norueguês loiro de olhos azuis isso não significa que ele não é um louco moreno e ululante do Médio Oriente."1
Enquanto a fantasia dominava a atenção mediática, muitos líderes políticos seguiam a mesma cantilena. As autoridades norueguesas ainda não haviam descartado a hipótese de se tratar de um ataque da Al-Qaeda, mesmo depois de o autor do crime ter confessado. Os governos dos EUA e do Reino Unido ofereceram o seu apoio para lutar contra a ameaça terrorista logo após os atentados. Mas toda esta fúria se desvaneceu quando se tornou evidente que o inimigo é interno.
Tivesse sido mais um atentado Al-Qaeda e a esta hora estaríamos a ver os líderes políticos a prometer maior empenho na luta contra o terrorismo e os “peritos” em terrorismo a defender um maior controle de toda a gente que ouse usar um turbante ou um niqab. Como o criminoso em causa é um elemento da extrema-direita anti-muçulmana, o acto foi imediatamente reduzido a um acto isolado de um louco, como se o louco não fizesse parte de uma rede com milhares de seguidores na Internet. Pior ainda, muitos comentadores de direita ousam agora defender que o ataque, embora condenável, até é compreensível. No Wall Street Journal, por exemplo, podemos ler que os grupos de extrema-direita usam a violência para expressar "preocupações legítimas sobre problemas genuínos", sendo que o problema central é o multiculturalismo.
Assim a direita conservadora dá as mãos à extrema-direita e passa um esfregão sobre a sua sujeira. O que une o discurso anti-ciganos de Paulo Portas e o discurso anti-islâmicos de Anders Breivik é a ideia de que existe um choque de culturas ou de civilizações que é insuperável, que culturas muito diferentes não têm como conviver em conjunto. Une-os também a convicção de que a Europa foi contaminada pelo multiculturalismo, definido como o projecto de combinar diferentes culturas de forma harmoniosa mas que na realidade não passa de uma conspiração que une esquerdistas e minorias étnicas ou religiosas cujo fim é a destruição da cultura europeia. Associado a esta convicção vem a ideia de que a Europa sofre de uma crise civilizacional, estando a perder a sua identidade devido ao multiculturalismo.
Nada disto é novo. No início do século XX já a política europeia estava a ser dominada por uma ideologia anti-semita que acusava os judeus de estarem a usar a tolerância com que seriam presenteados como uma catapulta para a destruição da cultura cristã. Sabemos bem onde isso levou e sabemos bem também que a extrema-direita nunca foi nem nunca deixará de ser um agregado de grupos criminosos cuja existência não pode ser tolerada. Reorientar a política anti-terrorismo para o combate aos grupos nazis/fascistas que ameaçam a segurança de todos e desmascarar a falsa ideia que alimenta estes grupos de que pessoas com diferentes culturas não podem conviver pacificamente são tarefas que a esquerda democrática não pode nunca descurar.