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O SNS tem de ser o nosso amor de verão

Os números avassaladores são uma bomba relógio na saúde da população do distrito de Setúbal. O reforço do SNS é prioridade e o verão, antes da próxima campanha da gripe é a altura ideal para trabalhar e corrigir esta situação.
Somos Todos SNS- cartaz do Bloco de Esquerda

A resposta à pandemia de COVID-19 colocou-nos perante um desafio sem precedentes, em todas as dimensões das nossas vidas. O SNS reorganizou-se, a economia entrou em suspensão e os cidadãos responderam com o esforço do confinamento, com o lema “vamos achatar a curva”. Evitámos o colapso e a tragédia italiana ou espanhola.

Essa primeira resposta sanitária permitiu-nos aguentar o primeiro embate, mas o que se lhe seguiu levanta desafios ainda mais exigentes. Um deles é lidar com os efeitos indiretos na saúde causados pela pandemia. Segundo declarações recentes da ministra da saúde, com a suspensão da atividade programada ficaram por realizar 902 mil consultas e 85 mil cirurgias.

O distrito de Setúbal sempre foi uma região carenciada no acesso à saúde. Conjuga uma insuficiência crónica com necessidades não satisfeitas e enormes desigualdades em saúde. Vivemos num distrito onde a cobertura por médicos e enfermeiros de família está muito longe do necessário, não apenas nas zonas urbanas mais densas como no ACES Almada/Seixal, mas também em freguesias com grande crescimento populacional, como a Quinta do Conde, ou municípios menos densos, como a Moita. O acesso aos cuidados de saúde em contexto de urgência retrocedeu à década de 80 do século passado, como demonstra o encerramento noturno das urgências pediátricas e obstétricas do Hospital Garcia d’Orta.

É neste contexto que a suspensão da atividade programada penaliza de forma assimétrica a população do distrito. Em maio do ano passado, os hospitais da península de Setúbal tinham realizado 13.639 cirurgias, este ano foram realizadas menos quatro mil cirurgias, uma drástica redução perto dos 33%. Esta situação terá tendência a agravar nos próximos meses porque estão a ser inscritas para atividade cirúrgica programada cada vez menos pessoas. Dito de outra forma, os hospitais da região estão a operar menos, mas a entrada de pessoas em lista de espera é quase nula.

A nível de consultas de especialidades, tipicamente uma das dimensões mais frágeis do nosso SNS, assistimos igualmente a uma acentuada quebra da produção hospitalar. No ano passado, estão registados 313.852 episódios de consulta de especialidade em contexto hospitalar. Este ano, foram realizadas apenas 258.828 consultas, uma preocupante diminuição de 60 mil consultas.

Este impacto estendeu-se às atividades de prevenção e promoção da saúde. Foram administradas menos quatro mil vacinas este ano em relação ao período homólogo do ano passado. Foram emitidos menos 206 mil pedidos de análises laboratoriais, menos 40 mil pedidos de exames de cardiologia e 10 mil pedidos de anatomia patológica, responsável pela identificação – entre outras coisas – de patologias do foro oncológico.

A equidade em saúde é das primeiras vítimas da falta de investimento em saúde. Mas os seus efeitos sentem-se mais naqueles já de si mais carenciados, com mais necessidades e com menos meios para procurar formas alternativas de satisfazer as suas necessidades em saúde. A redução das desigualdades em saúde é um dos objetivos do SNS, esta travagem a fundo sem plano de recuperação à vista precisa de ser invertida.

Estes números avassaladores são uma bomba relógio na saúde da população do distrito de Setúbal. O Bloco em várias ocasiões tem chamado a atenção para este problema. Não nos limitamos a alertar, propusemos soluções válidas pela saúde de todos. Porque ninguém pode ficar para trás em tempos de pandemia, o distrito de Setúbal precisa da construção urgente do novo Hospital do Seixal, já aprovada no Parlamento por proposta do Bloco; das obras necessárias no Hospital de Setúbal, da reorganização hospitalar para permitir o recomeço da atividade programada e um programa específico para recuperar tudo o que não foi efetuado. Além disso, é indispensável integrar os 8.400 profissionais da Saúde já previstos no âmbito do OE2020.

A pandemia mostrou que se não contarmos com serviços públicos robustos, estamos mais vulneráveis a todos os males. Isto vale para a pandemia e para qualquer crise económica. O reforço do SNS é prioridade e o verão, antes da próxima campanha da gripe é a altura ideal para trabalhar e corrigir esta situação. Já vamos tarde, mas ainda é possível.

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