O Silenciamento das Mulheres de Esquerda

porLana Pereira

06 de novembro 2025 - 16:09
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Diante da hostilidade e do apagamento das nossas vozes, nós continuaremos firmes: mulheres de esquerda, unam-se, ocupem o espaço público e reivindiquem o vosso lugar na política, no mercado de trabalho, nos media e na sociedade. Cada presença importa, e juntas podemos romper o silêncio, desafiar estruturas de poder injustas e construir uma política mais justa e representativa.

Temos assistido nos últimos tempos a uma crescente hostilidade no debate público: através das redes sociais, da imprensa e do uso de narrativas moralistas e distorcidas. A Assembleia da República, aquela que deveria ser a casa da democracia, tem sido espaço de ataques misóginos e sexistas contra deputadas de esquerda.

Pensemos no caso da deputada socialista Isabel Moreira, que chegou mesmo a apresentar uma queixa contra o deputado do Chega, Filipe Melo, após este lhe ter dirigido beijos e feito gestos para que se calasse enquanto ocupava o lugar na Mesa da Assembleia da República.

Pensemos também no caso da deputada socialista Eva Cruzeiro, que foi mandada para a sua terra, mais uma vez, pelo deputado Filipe Melo. Trata-se de um ato altamente racista e xenófobo, que ilustra como vozes jovens, feministas e negras são alvo de constantes ataques.

Pensemos no caso de Mariana Mortágua, alvo permanente da extrema-direita em Portugal. Mariana representa o pensamento económico e social mais sólido da esquerda contemporânea, e tudo aquilo que a direita não suporta. Vive na pele o custo pessoal de ser mulher, lésbica, jovem e líder à esquerda, num espaço público ainda dominado por estigmas e misoginia.

Fora desta esfera, soubemos recentemente da saída de Raquel Varela da RTP, num contexto de controlo sobre conteúdos críticos. A verdade é que Raquel incomoda os interesses instalados ao criticar o novo pacote laboral e ao apontar o retrocesso que este representa em matéria de direitos dos trabalhadores. Este pacote reduz a proteção em caso de despedimento, aumenta a insegurança laboral e diminui a influência sindical na negociação coletiva, abrindo portas a mais trabalho precário e horas extraordinárias, entre outros retrocessos.

Por último, pensemos no caso de Catarina Martins, que saiu do programa Linhas Vermelhas da SIC Notícias, substituído por outro chamado Linhas Direitas, cujos comentadores são exclusivamente do espectro da direita. Este caso exemplifica perfeitamente como vozes de esquerda são marginalizadas em espaços mediáticos. Apesar de trazerem debate político relevante e propostas fundamentadas, estas vozes são frequentemente empurradas para fora do espaço público, perdendo a oportunidade de intervenção direta junto do público.

Estes exemplos, embora distintos, revelam um padrão preocupante de silenciamento e marginalização de vozes progressistas e femininas.

Deixo um apelo às mulheres de esquerda: persistam, ocupem o espaço público, falem e reivindiquem a vossa voz. Não deixem que o ódio, a opressão ou o silenciamento mediático apaguem as vossas ideias. A nossa presença é crucial para reforçar a pluralidade, a justiça social e a força da democracia.

Estes casos não são incidentes isolados, partem de uma agenda de extrema-direita que ameaça a própria vitalidade do debate democrático. Cabe-nos a todas resistir, amplificar vozes e garantir que a política, os media e a sociedade não se resignem ao silêncio imposto pelo medo, pela opressão ou pelos interesses instalados. O futuro da esquerda e da democracia depende de cada uma de nós.

Lana Pereira
Sobre o/a autor(a)

Lana Pereira

Estudante de Línguas Estrangeiras. Modelo. Ativista política, feminista e LGBTQIA+
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