O sexo e a política

porCarla Martins

07 de janeiro 2016 - 15:40
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A retórica mediática tende a identificar as mulheres políticas como "mulheres", antes de as reconhecer como "políticas".

Num artigo de opinião publicado a 20 de dezembro pelo Jornal de Notícias, intitulado "Os cartazes de Marisa", o autor defende a tese de que nas últimas eleições legislativas "o Bloco de Esquerda, antes de qualquer outro partido, percebeu uma coisa nova: a beleza das suas mulheres valia votos. Muitos".

Esta tese extraordinária é suportada em argumentos não menos extraordinários como: "as carinhas larocas de Mariana Mortágua e Catarina Martins foram um ativo eleitoral de peso".

O autor estende às presidenciais esta putativa estratégia de marketing, notando que a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, Marisa Matias, é "toda ela forma, toda ela olhar, é a protagonista. E a mensagem é ainda mais radical e mais sensual. (...) Nas duas mensagens, Marisa é olhar e sedução. Nos dois cartazes, Marisa é juventude e beleza".

Parece inquestionável, como escreve o autor, que "foram as mulheres do Bloco que levaram a Esquerda para o poder" e foi "uma nova geração de políticas (no sentido do género das protagonistas) que guindou o Bloco à condição de terceira força política em Portugal".

Porém, as razões a que se atribui esta evolução afiguram-se-me altamente discutíveis. Alguns comentadores no espaço de opinião têm revelado dificuldades no enquadramento deste inédito poder político feminino que não se sabe nomear (são "miúdas", "meninas"), suscita críticas de agressividade (é um poder "esganiçado") ou a suspeição de que se baseia em atributos de beleza e juventude. E de sedução. Marisa Matias estará a fazer velados convites aos eleitores que a contemplam? Constrói e projeta de si uma imagem sexualizada?

Sem querer fazer juízos de intenção, isto é a "realidade" ou a fantasia do autor? Não estará este último a procurar legitimar, generalizando-os, pensamentos e desejos estritamente particulares?

Há aqui traços de uma herança simbólica de uma certa forma de olhar o corpo feminino, o qual parece surgir para deleite do olhar do espectador: "Marisa é olhar e sedução" apresenta-se "como se fosse, ela própria, um objeto de desejo".

Invulgar ainda no artigo é a sugestão de que o aproveitamento destes atributos é "novo" e que o Bloco de Esquerda percebeu isso "antes de qualquer outro partido", capitalizando "os votos jovens que o PS não soube apanhar e de que tanto precisava".

Há que destacar que retoricamente o artigo desenha um ciclo perfeito. É o próprio autor que converte a sua opinião numa espécie de "verdade", e questiono-me em que medida há alguma correspondência entre a sua descrição e a real estratégia política do Bloco de Esquerda. Uma reportagem publicada no jornal "i" de 22 de dezembro, que foi destacada como manchete da edição, sugere o oposto.

E, inversamente ao que se argumenta, nada disto é novo. O autor nada mais faz do que reproduzir e perpetuar fórmulas estereotipadas de enquadrar a participação política feminina.

Investiguei academicamente a relação entre os campos político e jornalístico numa perspetiva de género, procurando saber se a política tem género sob o olhar dos e das jornalistas. As minhas conclusões, a partir da análise de casos concretos, apontam para uma resposta afirmativa.

A retórica mediática tende a identificar as mulheres políticas como "mulheres", antes de as reconhecer como "políticas". O seu sexo é sempre exposto. Uma das formas de destacar esta diferença é associar mais frequentemente as mulheres políticas a atributos de beleza, a descrições físicas, a escolhas de vestuário, à idade. Quanto mais belas e jovens, mais sexualizadas e objetivadoras tendem a ser as representações mediáticas. Se menos belas e mais velhas, tendem a ser apresentadas como líderes "assexuadas" e pouco femininas. Ambos os arquétipos as penalizam, porque criam uma tensão entre poder e feminilidade. Em ambos os quadros, as mulheres são afastadas do poder.

Em tempos de hegemonia da imagem, sendo a política indissociável dos processos comunicacionais, não questiono a relevância política de atributos precisamente relacionados com a aparência. Mas questiono a centralidade destes atributos na argumentação do comentador em comparação com qualidades como a combatividade e a competência, as prioridades e as propostas. A argumentação materializa uma injusta menorização das líderes políticas.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 5 de janeiro de 2016

Carla Martins
Sobre o/a autor(a)

Carla Martins

Professora Universitária e Investigadora
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