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O que nos une. E um enorme obrigado

Enquanto alguns procuram o ódio e a divisão, eu prefiro dedicar este texto ao que nos une, a uma das maiores realizações que alcançamos enquanto país: o Serviço Nacional de Saúde.

Há agendas que teimam em semear o ódio e a divisão. Já tínhamos visto isso noutras longitudes com a cartilha de Donald Trump, mas os políticos de karaoke que por cá temos teimam em seguir-lhe o execrável guião. A receita incorpora afirmações chocantes com o objetivo de polarizar opiniões e, logo depois, colocar o chapéu da vitimização alegando uma interpretação abusiva ou demasiado literal – primeiro atacam para depois se martirizarem, dizendo-se vilipendiados pelo politicamente correto ou a cultura de cancelamento.

A exterminadora implacável que o PSD apresenta como candidata autárquica ao concelho da Amadora mostrou, novamente, que é uma ameaça à democracia e à livre expressão de opiniões. O PSD, novamente, veio interpretar as palavras da candidata, dando a garantia que o ovo não é de serpente. Quando Suzana Garcia defendeu a castração química, o PSD assegurava que ela se referia a uma terapia medicamentosa de controle de líbido – agora o PSD explica que a palavra “extermínio” é um eufemismo para uma pesada derrota eleitoral. A caricatura está feita com um partido que deixou de defender uma linha política ou de ter uma memória histórica para se transformar numa equipa de comunicação cujo único objetivo é dizer que é um cordeiro o lobo que lhe veste a pele.

Enquanto alguns procuram o ódio e a divisão, eu prefiro dedicar este texto ao que nos une, a uma das maiores realizações que alcançamos enquanto país: o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Esse sonho de António Arnaut é uma das maiores conquistas do período democrático. E, se em período pandémico mostrou que é feito de heróis e heroínas nacionais, em todos os dias é a rede de segurança que não deixa ninguém sem cuidados de saúde. E, não por acaso, o número que nos pedem à entrada não é o do cartão de crédito, é o de utente – um serviço universal, tendencialmente gratuito porque o acesso a cuidados de saúde é um direito, não é um privilégio.

Por circunstâncias pessoais passei a última semana em deslocações diárias ao Hospital Padre Américo, em Penafiel, do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (CHTS). Eu sei que este hospital ficou recentemente no ideário nacional pelo quase colapso que a pandemia provocou no final do ano passado. Mas deixem-me falar-vos da minha experiência, que é radicalmente diferente.

Há vários motivos para orgulho no SNS, mas aquele que mais se destaca nas comparações internacionais é o da mortalidade infantil. Em quatro décadas de existência, o nosso país passou de uma das maiores taxas de mortalidade infantil do mundo a uma das menores, ficando nos cinco melhores países do mundo relativamente a este indicador – em 2020 conseguimos o melhor resultado de sempre com apenas 2,4 mortes por mil nascimentos. Sei, por esta estatística, que falar do serviço de Obstetrícia e do Bloco de Partos do CHTS é provavelmente falar da jóia mais brilhante desta coroa. No entanto, é na excelência que devemos colocar a bitola.

O que testemunhei no serviço de Obstetrícia do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa foi uma dedicação imensa, emprestando uma enorme sensibilidade à forma como lidam com as mães (e também com os pais) e como simplificam aqueles desafios difíceis que uma nova vida nos coloca

O serviço é o mais “fofinho”, como dizia uma das enfermeiras, mas não é dos menos exigentes. E o que testemunhei foi uma dedicação imensa, emprestando uma enorme sensibilidade à forma como lidam com as mães (e também com os pais) e como simplificam aqueles desafios difíceis que uma nova vida nos coloca. Não se trata de inventar a roda, que isto da maternidade já tem uns valentes milhares de anos de experiência, mas sim de garantir a serenidade e o apoio necessário a quem, mesmo não sendo novo nesta coisa de lidar com bebés, está numa situação de maior fragilidade e precisa do melhor conhecimento científico conjugado com a maior humanidade. E, até quando as coisas não correm bem – sim, porque há muito que pode correr pior –, há um apoio constante e uma disponibilidade total.

Sei que o SNS é muito grande e tem realidades muito diferentes, mas há valores, cultura, experiência e partilhas de conhecimento que são transversais. Por isso, quando agradeço às e aos profissionais do serviço de Obstetrícia do CHTS, é a todos os profissionais do SNS que digo Obrigado – porque nos ajudam nos momentos mais difíceis e nunca nos viram as costas, mas também porque são mais um exemplo de como, enquanto povo, conseguimos alcançar feitos extraordinários.

Artigo publicado no jornal “Público” a 30 de abril de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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