O que nos diz a ausência de Ventura na Jornada Mundial da Juventude

porBruno Candeias

17 de agosto 2023 - 17:54
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Ventura escolheu agradar aos sectores ultraconservadores, e o que isso nos diz é que estamos perante a constatação de que o populismo está a perder para a afirmação de um partido vincadamente neofascista. E isso não é uma rotura com o sistema é o regresso a um passado mais obscuro.

Com a hipermediatização da Jornada Mundial da Juventude em torno da figura máxima do Vaticano, talvez ninguém tenha reparado que André Ventura optou por passar esses dias em campanha na Madeira.

Foi o fervoroso Católico, crente “que Deus lhe confiou uma missão”, que usa igrejas em ações de campanha para demonstrar a sua devoção, explorando o filão da direita tradicional, que cedeu à segunda linha do partido a representação institucional de que o Chega não abdicou nas Jornadas Mundiais da Juventude. Esta opção é estranha, mas não é inexplicável num partido centrado na figura do “chefe”.

Para um conhecido critico do Papa Francisco (não da Igreja) em várias matérias, que acusa mesmo de “prestar um mau serviço ao cristianismo”, só tinha duas opções: ou engolia o sapo seguindo uma linha populista com a contradição a fazer parte de uma das equações “catch-all”, ou demarcava-se da iniciativa para agradar a sectores ultraconservadores da Igreja, para quem este Papa é demasiado progressista e contribui “para destruir as bases da Igreja Católica”.

Ventura escolheu agradar aos sectores ultraconservadores, e o que isso nos diz é que estamos perante a constatação de que o populismo está a perder para a afirmação de um partido vincadamente neofascista. E isso não é uma rotura com o sistema é o regresso a um passado mais obscuro.

Nada que o recente relatório do Projeto Global Contra o Ódio e Extremismo (GPHAE) não sinalize, ou que o percurso e matriz ideológica dos seus dirigentes não confirme, um partido onde o ódio e o medo são catalisam o maniqueísmo para impor a ordem. Não restam dúvidas que o seu projeto é autoritário, castrador de liberdades, racista, xenófobo, misógino, LGBTQIA+fobico, negacionista da crise climática, um projeto onde serão os mesmos de sempre a manter o seu privilégio.

No contexto internacional, Steve Bannon um fiel “judaico-cristão” que fora o arquiteto (troll mor) da eleição de Trump, quis construir uma internacional populista, cimentada na necropolitica, que pudesse ganhar espaço à escala global e apressou-se a estimular essa ligação, de políticos a poderosos financiadores. Trump, Bolsonaro, Orban, Le Pen, Salvini, Abascal, Ventura, são apenas alguns dos seus sócios. O circuito onde se movem é o mesmo e episódios como as invasões do Capitólio e do Palácio do Planalto são o corolário da cedência a ultraconservadores e radicais religiosos, com a ascensão de milícias “politico-religiosas”. Não nos podemos distrair.

Bruno Candeias
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Bruno Candeias

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