Nesta campanha assistimos às mais incríveis metamorfoses. Por estarmos no Porto, gostaria de realçar a impressionante transformação de Rui-Rio-ele-mesmo no “Rui Rio, paz e amor”, um substituto contemporâneo do simpático Avó cantigas.
Como nos poderíamos esquecer da violência social e política dos mandatos de Rui Rio?
Rui Rio quer contar-nos uma estória em que aparece bonzinho, paciente, humilde e sorridente, numa das operações de amnésia coletiva mais estonteantes dos últimos tempos!
Mas nós somos do Porto! Como nos poderíamos esquecer da violência social e política dos seus mandatos? Como nos poderíamos esquecer do Rui-Rio-ele-mesmo que bebia placidamente um cálice de Porto no barco turístico enquanto o Bairro do Aleixo era destruído, deixando centenas de pessoas desenraizadas? Como esquecer a perseguição aos jornalistas que o ousavam criticar? Como olvidar os despejos violentos, idosos empurrados das suas casas, cortes de luz e de água? Ou a destruição do tecido cultural, porque considerava os criadores como subsídio-dependentes? Subsídio-dependentes? De que espectro político vem esta linguagem? Como nos admirarmos das potenciais cumplicidades? E o ódio aos arrumadores de carros, que o Rui-Rio-ele-mesmo queria internar em instituições psiquiátricas, obrigando a polícia municipal a vigiá-los e puni-los? Como esquecermos? Rui-Rio-ele-mesmo não é doce, nem complacente, nem tolerante. É ele mesmo.
O Bloco de Esquerda sabe isso melhor do que ninguém porque foi a oposição a Rui Rio, ao lado de movimentos populares, associações, artistas. O PS desistia, quase nem se via. E o PCP sentava-se no executivo camarário partilhando o desvario.
Mas há outros exercícios de amnésia seletiva que importa denunciar. Às vezes o retorno do oprimido regressa quando menos se espera. Augusto Santos Silva, esse fazedor de reis, lá veio dizer o que António Costa não pode exprimir: se necessário, haverá um acordo de cavalheiros entre PS e PSD para viabilizar a governação.
O “acordo de cavalheiros” que faz da elite um poder permanente nas costas do povo
Esse é o problema do país, esse eterno “acordo de cavalheiros” que faz da elite um poder permanente nas costas do povo e contra o povo. O “acordo de cavalheiros” que senta à mesa da administração da CGD e de outras empresas públicas os “cavalheiros” do PS, PSD e CDS. O acordo de cavalheiros que, na década de 90, adiou a legalização do aborto e tem protelado a regionalização. O acordo de cavalheiros que abre as bolsas do erário público ao financiamento da banca, às PPP e às borlas fiscais. O acordo de cavalheiros que é, nem mais nem menos, o bloco central oculto e informal das portas giratórias entre partidos do centrão e empresas, empresas e partidos do centrão, alimentando a corrupção institucionalizada.
O problema do nosso país é mesmo esse acordo de cavalheiros!
Por isso, cada voto no Bloco conta. Conta para descolonizar a vida política portuguesa do fantasma da Troika que se insinua, qual espectro, mesmo depois da Troika física se ter ido embora. A troika que permanece na insegurança laboral, na desproteção social, na precariedade, na vulnerabilidade de tantos e tantas.
O PS só decidirá pela esquerda se o Bloco tiver força
A Troika de espírito que coloniza o PS e o amedronta – esse PS hesitante, ambíguo, sempre a vacilar, sempre a jogar em vários tabuleiros, para quem o poder – e apenas o poder – parece interessar.
O PS só decidirá pela esquerda se o Bloco tiver força. O Bloco – essa esquerda que vem de longe, que herda as lutas pela liberdade, a igualdade e a emancipação. O Bloco que recebe a herança de tantos e tantas anarquistas, comunistas, socialistas, radicais, feministas, ecologistas, gays, lésbicas, transsexuais. O Bloco que não se amedronta, que ousa, que quer avançar. O Bloco da Catarina e das irmãs Mortágua que tanto intimida os homens machistas, homofóbicos e racistas do Chega.
O Bloco que não se esconde, que não ludibria, que não vacila. O Bloco. A esquerda.
Intervenção no comício do Porto, realizado a 28 de janeiro de 2022