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O preço da resiliência

Contas por alto, os 400 milhões gastos em horas extraordinárias até setembro dariam para o salário anual de 13 mil profissionais de saúde.

Afinal a resiliência dos profissionais de saúde tem um preço: até setembro de 2021 foram 400 milhões de euros. Mas a fatura é ainda mais pesada do que isso, porque a conta também é feita à exaustão das cinco milhões de horas extra feitas pelos enfermeiros e às mais de quatro milhões de horas, também extraordinárias, que fizeram os médicos.

Quando Marta Temido diz querer profissionais mais resilientes para o Serviço Nacional de Saúde, já não está a falar de pessoas, não pode. O que vemos hoje é um esforço sobre-humano, de semanas de trabalho de 70 horas, das fugidias vidas familiares. Por isso as palavras da ministra caíram como um insulto, souberam a fel, desvalorizaram quem tanto se sacrifica, falharam no reconhecimento essencial: a resiliência não está em falta, o que escasseia são os profissionais. Temido bem pode pedir desculpas, mas são palavras ocas enquanto não chegarem os profissionais que fazem falta.

Quem trabalha no SNS sente na pele, quem precisa do SNS constata a cada solicitação: as horas extra sugam a energia dos profissionais e absorvem recursos essenciais às instituições. Não é uma solução, é um expediente e, como acontece sempre que uma resposta temporária se força definitiva, torna-se um problema. É disto que se trata quando falamos da falta de pensamento estrutural para um setor tão importante como o da resposta pública na saúde.

Sem perspetivas de carreiras dignas, a braços com um tsunami de trabalho extraordinário que tudo submerge, a perda de profissionais torna-se banal. É um círculo vicioso em que as horas extraordinárias serão tão mais indispensáveis quanto a fuga de profissionais se agudizar. Insistir neste caminho só dá uma garantia: o futuro será ainda pior. Depois vem o burnout dos profissionais, o pesadelo dos utentes e o desespero orçamental.

Contas por alto, os 400 milhões dariam para o salário anual de 13 mil profissionais. É um bom exemplo para mostrar como o barato sai caro, que quando se rejeita a criação de condições de trabalho dignas e atrativas se está a enveredar por um caminho bem mais dispendioso e com piores resultados nos cuidados de saúde prestados. E, ao contrário do que se poderia pensar depois de tantos anúncios do Governo, a falta de profissionais fez com que em setembro já se tivesse ido além do recorde de 2020 no número de horas extraordinárias.

A par das horas extraordinárias caminha o dinheiro gasto em prestações de serviço. Até setembro de 2021 foram gastos 105, 7 milhões de euros nesta forma de subcontratação. Mais uma vez a realidade tira o tapete às promessas do Governo: o objetivo era reduzir o valor gasto em prestações de serviço e o resultado está a ser o contrário.

várias desculpas mais, muitas delas estafadas, sobre as dificuldades de contratação de profissionais. De certa forma, servem para justificar o aumento do número de horas extraordinárias e a falta de estratégia na gestão mas resistem a um olhar mais informado. Quando nos dizem que não há médicos para contratar não estão a contar a história toda. É certo que há muitos concursos que ficam pela metade, que não têm candidatos suficientes para as vagas a preencher. E quando encerram serviços ou as chefias (e outros profissionais) se demitem por exaustão, ou mesmo perante o crescente número de utentes sem médicos de família, é essa a justificação que nos dão: abrimos concurso, mas não tivemos os candidatos que gostaríamos. E logo a seguir se fecha o argumento dizendo que não há mais nada que se possa fazer. Mas isso é falso.

Os números mostram que não faltam médicos nem enfermeiros em Portugal. Veja-se, com mais pormenor o caso dos clínicos: metade dos médicos inscritos na Ordem não está no SNS. Os concursos de recém-especialistas crescentemente desertos mostram que há médicos, são as condições do SNS que não os atraem.

É uma questão de bom senso, de gestão e de vontade: usar o dinheiro que já existe para criar carreiras atrativas, recarregar a energia de quem trabalha no SNS e garantir os melhores cuidados de saúde. Agora que sabemos quanto pesa a resiliência no nosso bolso, é tempo de exigir uma melhor gestão dos cuidados públicos de saúde.

Artigo publicado no jornal “Público” a 3 de dezembro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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