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O Pecado Capital

Ousar combater a extrema-direita sem colocar em causa o sistema económico, que a sustenta, é um erro que não nos podemos dar ao luxo de cometer.

Na edição do “Público” do passado dia 1 de Fevereiro, Boaventura de Sousa Santos redigiu um artigo inconsequente, cuja superficialidade de análise já foi, e bem, denunciada por quem de direito. Não é sobre a totalidade desse artigo que me proponho debruçar, mas sim sobre um argumento em particular, utilizado pelo seu autor, para criticar a posição da esquerda em relação ao Orçamento de Estado para 2022.

Numa ânsia incessante de tudo criticar, Boaventura acabou por atribuir as culpas do crescimento da extrema-direita, e do seu discurso revanchista e bafiento, aos partidos da “esquerda à esquerda do PS”. Como se isso não fosse suficiente, ainda conseguiu transformar António Costa no baluarte da defesa dos interesses democráticos, ao impedir, vejam só, uma “geringonça” de direita - com a participação do partido de André Ventura. No entanto, o messias socialista, apesar de todos os seus feitos, não conseguiu impedir que “a porta para a extrema-direita” ficasse “mais que entreaberta”. Esta análise, superficial mas nociva, omite uma miríade de fatores que não podem, a bem da seriedade e da coerência, ser ignorados.

Este entendimento, repetido por vários quadrantes ideológicos a nível internacional, pretende culpabilizar aqueles que procuram um rompimento estrutural com o sistema económico vigente, pela emergência do populismo extremista das novas direitas autoritárias. Nada podia ser mais incorreto.

A história ensina-nos, aliás, o oposto. O crescimento da extrema-direita ocorre, tendencialmente, através da radicalização de determinados setores da oligarquia que, aproveitando as brechas dos velhos sistemas liberais do pós-guerra, optam por vias cada vez mais autoritárias, como forma de manter ou reforçar a sua hegemonia. Este autoritarismo de novo tipo, acompanhando a lógica do desenvolvimento da fase neoliberal do capitalismo, nasce das contradições inerentes ao próprio sistema.

Durante o escasso período de tempo em que as reivindicações populares conseguem ser enquadradas dentro da ordem liberal, permitindo, em simultâneo, a satisfação momentânea das massas e o crescimento económico da oligarquia, o autoritarismo é repudiado por todos, sem exceção. No entanto, a partir do momento em que este espírito de conciliação deixa de servir os interesses maximalistas da elite económica, nascem as “bestas”, como forma de estancar as reivindicações crescentes contra os efeitos dramáticos destas políticas antissociais.

É aqui que Boaventura mais peca. O seu desejo por castigar a esquerda impede-o de entender algo muito simples: historicamente, foi o centro-esquerda e a social-democracia que, pretendendo aprofundar a conciliação entre as diversas classes sociais, acabaram por criar um clima favorável ao surgimento destes novos autoritarismos. Foram os partidos da família ideológica do PS que, sendo permeáveis aos grandes interesses económicos, acabaram por, inevitavelmente, privatizar a maioria dos serviços públicos e liberalizar a maioria dos códigos laborais.

De França ao Brasil. De Espanha a Itália. A história está aí, e não falha.

A nova extrema-direita, com a sua narrativa identitária e classista, não é uma “anomalia política”, como refere Lula da Silva. Nem, tampouco, surge por geração espontânea. Ela tem uma natureza específica, uma estratégia concreta e surge como resultado direto das contradições de um sistema económico que, aproveitando a Democracia e o Estado Social como forma de auto-legitimação, não hesita em desfazer-se de ambos, desde que isso lhes garanta a manutenção inquestionável do poder.

É isto que Boaventura teima em não compreender: a cedência incondicional ao PS geraria as condições politicas e sociais necessárias para o crescimento da extrema-direita.

Se queremos impedir a ascensão desta nova geração de autoritarismos e, consequentemente, a fragilização das nossas instituições democráticas, necessitamos de um novo modelo de desenvolvimento social. Um modelo alternativo, que não procure consensos alargados, mas que, ao invés disso, canalize a esperança necessária para romper, de uma vez por todas, com o poder económico e financeiro oligárquico. Só uma esquerda transformadora e ousada, com capacidade mobilizadora e com um projeto de poder próprio, poderá combater a extrema-direita e, sobretudo, responder às causas do seu crescimento. Para esse combate, nós estaremos cá. Nas fábricas, nas universidades, nas instituições e nos coletivos. Lado a lado com o nosso povo, com as nossas gentes. Sem sectarismos, nem esquerdismos. Atendendo, sempre, ao desenvolvimento concreto da realidade política do país e da formação de novas maiorias sociais, mas sem nunca descurar o facto de que ousar combater a extrema-direita, sem colocar em causa o sistema económico que a sustenta, é um erro que não nos podemos dar ao luxo de cometer.

Sobre o/a autor(a)

Estudante de graduação em Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e ativista
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