O pantanal e as respostas à esquerda

porJoão Vasconcelos

08 de maio 2023 - 23:41
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Os trabalhadores e outros cidadãos deste país não estão condenados à inevitabilidade de governos ineptos e pantanosos do centrão político, com ou sem a escória racista. Urge criar uma alternativa política à esquerda, popular e verdadeiramente socialista.

No ano de 2001, depois de uma pesada derrota nas autárquicas, em que o PS perdeu Lisboa e Porto para o PSD, Guterres antevia o pântano e demitiu-se de primeiro-ministro. Um pântano político em que o PSD de Durão Barroso se preparava para um longo período de desgaste. Depois da vitória do PS em 1999, sem maioria absoluta, este vai ter de recorrer a um parceiro de recurso para a viabilização do Orçamento do Estado em 2001 – o famoso “Orçamento limiano”, a troco de apoios a uma fábrica de queijo. Esta foi uma altura em que, de facto, o país viveu uma situação pantanosa.

Alguns anos depois, pela mão de José Sócrates, o país foi conduzido de novo ao pântano político e económico. Primeiro, em 2009, o PS perdeu a ampla maioria de que beneficiava e, posteriormente, com a sua demissão em 2011, após cometer erros sucessivos e que culminaram numa crise financeira e na imposição da troika estrangeira, apoiada por PS, PSD e CDS. O que significou uma carga brutal e com sofrimentos inauditos para o povo português.

Em 2023 e depois de António Costa e o PS conquistarem uma maioria absoluta nas legislativas de janeiro de 2022, Portugal entrou de novo numa situação política pantanosa de grande amplitude. A situação é de tal modo grave que já não cabe numa dimensão de pântano, mas sim de um autêntico pantanal. E o principal responsável político é, sem dúvida, o primeiro-ministro António Costa. Mas Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, também é um dos grandes responsáveis pelo lodo que se vem acumulando no pantanal.

Recorrendo à dramatização e à chantagem política António Costa enganou os portugueses que acabaram por premiá-lo com uma maioria absoluta. Uma maioria absoluta que, em pouco mais de um ano, se transformou no pior pesadelo para os trabalhadores e o povo português. Embora dispondo de condições financeiras favoráveis, o governo PS mergulhou o país numa gravíssima crise social, optou pela arrogância e pelo autoritarismo, colocou os serviços públicos numa degradação acentuada e à beira da rutura, a corrupção alastra como mancha de óleo e enxameou os ministérios e suas dependências de “boys” e “girls”. A Comissão de Inquérito à TAP, proposta e bem pelo Bloco de Esquerda, está a pôr à tona as partes mais espessas do lodo que envolve os ministros, os seus adjuntos e outros responsáveis do PS.

Com efeito, não obstante as paletes de milhões de euros que estão a entrar no país por via do PRR e outros fundos europeus, a maioria absoluta do PS só está a contribuir para empobrecer os trabalhadores e outras camadas da população. A onda inflacionista em que as suas causas são atribuídas à guerra e onde o governo nada faz para a combater, ou toma medidas “faz de conta”, está a colocar muitas famílias em desespero e sem saber o que fazer face às despesas do quotidiano.

A carência dramática na habitação que navega ao sabor dos interesses especulativos privando as pessoas de casas para morar, a falta de resposta às necessidades do SNS e da melhoria das condições de vida e de trabalho dos seus profissionais, a falta de vontade e de soluções para melhorar a Escola Pública e responder satisfatoriamente às reivindicações e exigências da classe docente que tem vindo a travar uma das maiores lutas de que há memória no país, o reforço dos privilégios e das benesses dos grandes grupos económicos e financeiros e das elites venais e medíocres que pululam à sua volta, os sucessivos “casos e casinhos” governamentais, estão a tornar-se na imagem de marca deste governo e do seu primeiro-ministro. Um campo fértil para o crescimento do populismo racista de extrema-direita.

Marcelo Rebelo de Sousa ao primar pela banalização e excessivo intervencionismo na vida política, ao procurar aparar quase todas as “golpadas” de António Costa, tem contribuído para o avolumar do pantanal. E já não esconde, bem pelo contrário, um objetivo que porfia há anos – a constituição de um governo de direita com o regresso do PSD ao poder, com ou sem o apoio da extrema-direita. Seria o regresso dos “tempos de chumbo” sobre o povo português.

Os trabalhadores e outros cidadãos deste país não estão condenados à inevitabilidade de governos ineptos e pantanosos do centrão político, com ou sem a escória racista. Urge criar uma alternativa política à esquerda, popular e verdadeiramente socialista. Há que recrudescer as lutas, reivindicações e movimentos sociais a nível nacional. A França tem sido um bom exemplo de contestação e movimentação social e política por parte dos trabalhadores e outros grupos sociais. Trata-se de lutar por um país e um mundo melhor, com mais justiça social, mais democracia e mais solidariedade. Um país e um mundo sem exclusões.

João Vasconcelos
Sobre o/a autor(a)

João Vasconcelos

Professor. Doutorado em História Contemporânea.
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