O Palácio de Cristal e os seus vidros perigosos. A fotografia romântica que esconde os gritos de horas atrás. As roupas, as férias, os jantares, mas o contrato suspenso. A vida perfeita que o olhar tantas vezes contraria.
A saúde mental, ou melhor a falta dela, é um grave problema em Portugal. A saúde mental ainda não é saúde pública, anda ali entre o serviço privado para as terapias e o serviço comparticipado para os desleais antidepressivos. A Saúde mental não está acessível a todos, as terapias custam valores que nem todos podem pagar e enquanto as perturbações /doenças mentais forem tratadas nos serviços primários como um fungo no pé ou um desarranjo intestinal e o Prozac custar cerca de 13 euros e uma consulta de Psicologia 50, um em cada cinco portugueses continuarão a sofrer destas perturbações e o consumo de psicofármacos continuará a ser perigosamente elevado.
Sabemos que acalmam, fazem dormir, alavancam a vontade de viver, mas ocultam um problema que se não for devidamente tratado, através de métodos holísticos, com a participação de profissionais especializados, corremos o risco de transformar uma doença pontual, num calvário para toda a vida.
Aumentam a dose quando as queixas persistem, juntam ao cocktail mais dois ou três que enganam a tristeza, resolvem temporariamente a insónia, mas lançam para debaixo do tapete um acumular de sentimentos e emoções adormecidas que um dia já não é só um tapete que ali está, é já o chão da sala, a cerâmica da cozinha, o flutuante dos quartos.
O que é preciso são menos fármacos e melhores serviços.
Enquanto o Serviço Nacional de Saúde não der uma resposta adequada e as políticas de saúde mental provarem ser insuficientes e não existirem de forma acessível certas abordagens terapêuticas, o palácio de cristal de todos nós terá sempre vidros perigosos.