Está aqui

O novo normal tem de ter menos carros

Apesar de sabermos que a mobilidade das cidades deve ser profundamente alterada, tem faltado a coragem e audácia para fazer avançar as mudanças necessárias. Porque não agora?

A forma como nos temos movido nas cidades não é sustentável nem para o planeta, nem para a saúde pública. Vemos bem nas imagens de trânsito e nos próprios números que assim é. Só em Lisboa, são 400 mil carros que entram todos os dias na cidade e nos nossos pulmões. Em 2015, e segundo um estudo desenvolvido pelo Instituto Max Planck de Química e pela Universidade Médica de Mainz da Alemanha, ocorreram em Portugal 15 000 mortes prematuras devido à poluição. A poluição é um problema de saúde pública que não tem a cobertura mediática da covid19, mas isto pode mudar. Os carros nas cidades têm a maior fatia de responsabilidade neste problema. Como responder, então, ao problema?

Desde a chegada do vírus, foi evidente o aumento do número de utilizadores de bicicleta e a sua disponibilidade para privilegiar esse meio de transporte. Várias cidades europeias respondem ao desconfinamento com o aumento de ciclovias, incentivos ao uso da bicicleta, diminuição e restrição de circulação de carros, aumento de espaço público pedonável e mais oferta de transportes públicos. A cidade de Milão, por exemplo, antecipa todos estes planos previstos para execução até 2030 já para 2020.

 

Lisboa não pode ficar para trás e deve pedalar já para respostas que nos garantam o presente e o futuro. O que podemos fazer então?

Lisboa não pode ficar para trás e deve pedalar já para respostas que nos garantam o presente e o futuro. O que podemos fazer então?

Em 2010, Lisboa tinha 53 kms de ciclovia. Hoje tem 110 kms. Os números duplicaram em 10 anos mas o ritmo de crescimento tem de ser claramente superior. Para isso, o objetivo da Câmara Municipal de Lisboa chegar aos 200 kms de ciclovia em 2021 deve ser antecipado já para 2020. Sabe-se como vai ser feito, é preciso agora antecipar. Em paralelo, e à semelhança do que está a ser feito em inúmeras cidades europeias, podem ser criados mais 150 kms de ciclovias temporárias (pop-up) para percursos de ligação entre zonas habitacionais e infra estruturas como escolas, universidades, serviços públicos e zonas de serviços. É possível e tem de ser feito, pela saúde de todos nós.

E quem não tem bicicleta ou outro meio equivalente? O sucesso da rede municipal de bicicletas GIRA contribuiu para o aumento significativo do uso de bicicletas em Lisboa. Foi uma excelente aposta e um sucesso por todos reconhecido. Esta rede conta atualmente com 86 estações e 762 bicicletas. Apesar do enorme sucesso, a expectativa de expansão da oferta tem ficado aquém, com vários problemas ligados à empresa fornecedora que estão hoje ultrapassados. É necessário garantir a expansão deste serviço para a zona ocidental, oriental e norte de Lisboa e, pelo menos, duplicar o número de bicicletas e estações até 2021.

E onde se guardam as bicicletas quando não estão a uso? Lisboa tem um grave défice de estacionamento seguro e acessível para bicicletas, sobretudo em zonas residenciais, e isso pode ser corrigido com um aumento de estacionamento para bicicletas nestas zonas. Para isso, o lançamento de um programa municipal de apoio financeiro a condomínios de habitação que queiram realizar pequenas obras de adaptação para estacionamento de bicicletas poderia dar o impulso necessário. Para além disso, as empresas que incentivem o uso da bicicleta devem ter o apoio da CML na disponibilização de estacionamento de bicicletas e considerar-se um plano municipal de apoio à aquisição ou reparação de bicicleta. Não podemos esperar que se adopte um modo de vida mais saudável sem que os espaços sejam adaptados.

 

Tudo isto fará sentido para uma transformação da mobilidade de Lisboa se lhe associarmos uma redução da circulação automóvel

Tudo isto fará sentido para uma transformação da mobilidade de Lisboa se lhe associarmos uma redução da circulação automóvel. Para isso, o plano de Zona de Emissões Reduzidas Avenida Baixa Chiado não deve ser mais adiado. Para que esta boa iniciativa não se restrinja ao centro da cidade, outras zonas, tão ou mais poluídas, poderão ter medidas de controlo de volume de tráfego automóvel. Expandir esta medida para o Parque das Nações, Telheiras e Belém dá o sinal certo para a redução de automóveis e aumento da mobilidade suave. Isso significa expandir as zonas com velocidade máxima de 30km/h, avançar para o encerramento parcial de trânsito e para a readaptação de lugares de estacionamento de superfície em espaços verdes e de utilização pública.

Devido ao confinamento a que a pandemia nos obrigou, Lisboa chegou a ter um decréscimo de 80% das emissões de dióxido de azoto. Não nos esquecemos que associado a este decréscimo está associado o layoff, o desemprego, a fome e a doença. Este repensar da mobilidade não deve esquecer a economia e o emprego. O investimento público necessário para a transformar a cidade serve também de alavanca à economia e emprego.

A crise pandémica condicionou a vida em todas as cidades do mundo, mas obriga-nos também a repensar a mobilidade urbana. Vamos a isso.

Sobre o/a autor(a)

Autarca em Lisboa. Investigador em Sociedade, Risco e Saúde.
(...)