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O nosso orgulho não se vende

Se há algo que nós sabemos é que o Pride é sobre libertação. O nosso orgulho não foi conquistado por empresas, não foi conquistado para que países que constantemente violam a lei internacional nos utilizem para o seu branqueamento e não foi conquistado de modo individual.

Neste mês de junho celebramos o orgulho LGBTQIA+ e lembramos todas as pessoas que vieram antes de nós e que lutaram para que pudéssemos viver num mundo mais livre.

No dia 28 de junho de 1969, uma rebelião com início no bar Stonewall Inn, em Nova Iorque, dá início a semanas de revolta da comunidade LGBT daquela zona que, mais tarde, se vai tornar um movimento mais amplo pelos direitos das pessoas LGBT.

O Pride serve para honrarmos quem lutou por nós, para lutarmos pelos quem vêm a seguir a nós e para mostrarmos à sociedade que continuaremos a resistir independentemente da constante opressão da qual somos alvo. Porém, há quem se queira apropriar da nossa luta. Que o Capitalismo sempre se apropriou das várias lutas e causas para lucrar e ocultar as opressões que este sistema impõe aos grupos mais marginalizados na sociedade, não é novidade. Todos os anos, assim que entramos no mês de junho, é comum vermos grandes empresas e marcas a mudarem os seus logótipos acrescentando-lhes um arco-íris, as lojas de roupa começam a vender produtos com arco-íris, os anúncios e publicidade de repente incluem pessoas da comunidade, etc. Do nada, tudo se torna muito queer friendly e parece que vivemos num mundo onde o nosso direito a ser e amar quem quisermos está assegurado.

Mas tudo isto não passa de uma grande estratégia de marketing por parte das corporações que sabem que têm um grande mercado de consumo que gera grandes lucros na comunidade LGBTQIA+. Estas grandes corporações nunca foram nem nunca serão nossas verdadeiras aliadas, porque são as mesmas que, por exemplo, nos EUA financiam políticos anti LGBT, são as mesmas que nos exploram como trabalhadores, são as mesmas que nos discriminam no acesso ao trabalho por sermos quem somos, e acima de tudo, são elas as ferramentas essenciais de um sistema que nos oprime, portanto, neste mês elas tentam ocultar tudo isto e iludir a comunidade sobre a opressão a que estão sujeitas e a origem da mesma.

Mas este Pinkwashing vai para além da manipulação das corporações, há também países que o utilizam para passar para o exterior uma imagem de que são progressistas e, desse modo, branquear os crimes que constantemente cometem. Esse é o caso do estado de Israel, que utiliza os direitos LGBT para branquear os seus crimes, a ocupação do território palestiniano e o regime de apartheid ao qual submetem milhares de palestinianos. O estado de Israel, com a sua grande máquina de propaganda, vende para exterior a imagem de que é um paraíso para a comunidade LGBT, de que é o único país no médio oriente que não oprime a nossa comunidade e que, vejam só, são eles que salvam pessoas da comunidade LGBT que vivem nos seus países vizinhos. Antes de sequer falarmos de toda a violência que Israel impõe aos palestinianos, sejam eles Queer ou não, precisamos de falar de que Israel não é de todo um paraíso LGBT. Em 2017, o Supremo Tribunal de Israel afirmou por unanimidade que a sua constituição não reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo, reafirmando que é algo que compete às entidades religiosas, já que em Israel os casamentos são celebrados pelas autoridades religiosas. Enquanto se vende Telaviv como o local ideal para celebrar o orgulho, a realidade a que a comunidade LGBT é sujeita noutras regiões de Israel, na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, são completamente diferentes, onde os ataques dos ultranacionalistas e fanáticos religiosos são constantes.

Se há algo que nós sabemos é que o Pride é sobre libertação. Enquanto as pessoas trans não forem livres, nenhum de nós será livre. Enquanto as pessoas não binárias não forem reconhecidas na sociedade como tal, nenhum de nós será livre. Enquanto gays forem espancados na rua por se beijarem, nenhum de nós será livre. Enquanto as mulheres lésbicas forem fetichizadas, nenhum de nós será livre. Enquanto um povo for oprimido, nenhum de nós poderá ser totalmente livre.

O nosso orgulho não foi conquistado por empresas, não foi conquistado para que países que constantemente violam a lei internacional nos utilizem para o seu branqueamento e não foi conquistado de modo individual. O nosso orgulho foi conquistado por pessoas trans, gays, lésbicas, negras e trabalhadoras, que se juntaram todas num grito de revolta contra um sistema que teima em não nos deixar existir em plena liberdade.

Enquanto o arco-íris utilizado pelos nossos opressores durante 1 mês significar opressão nos 11 meses restantes, contarão SEMPRE com a nossa resistência.

Sobre o/a autor(a)

Mestranda em Comunicação Política na Faculdade de Letras do Porto, ativista feminista e dirigente do Bloco de Esquerda.
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