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O negacionismo das vacinas e outras boçalidades

O objetivo é sempre semear a desconfiança e incentivar as clivagens na sociedade até que apareça uma qualquer figura providencial, um salvador. Semear o caos para depois vender a ordem e justificar o autoritarismo.

Um dos recentes sucessos do país é uma das clamorosas derrotas dos negacionistas nacionais. Portugal vai na dianteira da vacinação contra a covid-19 porque fizemos este caminho aos ombros de gigantes: há décadas que a vacinação em Portugal é referência à escala mundial. Sem quaisquer obrigações ou represálias, a vacinação é um direito e sempre foi exercido como tal.

Desta vez a tarefa foi mais exigente, é certo, feita em contrarrelógio e com um esforço extraordinário de milhares de profissionais. No entanto, a relação de confiança que a larguíssima maioria da população tem com a saúde pública, o programa nacional de vacinação e o SNS, foi o terreno fértil para que esta campanha se realizasse com sucesso.

As coisas estão a ser bem diferentes noutros países, infelizmente. Em várias paragens a saúde pública não está tão centrada nas pessoas nem os programas de vacinação são tão cumpridos. Mas a principal areia na engrenagem é a mensagem negacionista, que semeia dúvidas sobre a verdade e certezas sobre a mentira, deixando um rasto de mortes pelo caminho. Isto é ainda mais miserável quando em muitos países há milhões de pessoas que querem ser vacinadas e sem acesso às vacinas que ficam no congelador.

É certo que o negacionismo não é coisa de agora. Existe há séculos e está bem documentado ao longo da história. Que o diga, por exemplo, Galileu Galilei, que quando afirmava ter provas que negavam o geocentrismo foi perseguido e condenado pela Inquisição - a Igreja Católica defendia que a Terra era o centro do universo e não aceitava a ideia do planeta girar em torno do Sol.

Podia continuar com exemplos históricos de negacionismo, uns mais boçais outros nem tanto. Mesmo nos dias de hoje, há quem jure a pés juntos que a Terra é plana; alguns negam a existência do holocausto; garantem que a vacina contra o sarampo é a origem dos casos de autismo. Não lhes interessa a ciência ou até as décadas de exploração espacial; não querem saber das vítimas das câmaras de gás nos campos de concentração e nem mesmo da confissão de vários dos seus assassinos; rejeitam toda a evidência científica que nega a ligação de qualquer vacina aos casos de autismo.

Há pessoas que embarcam em teses negacionistas porque a verdade lhes é inconveniente, inquietante ou mesmo dolorosa. Há outros que têm interesses próprios em espalhar teses negacionistas

Há pessoas que embarcam em teses negacionistas porque a verdade lhes é inconveniente, inquietante ou mesmo dolorosa. Há outros que têm interesses próprios em espalhar teses negacionistas, como é o caso das empresas tabaqueiras que durante décadas rejeitavam que o tabaco tinha efeitos nocivos nas pessoas fumadoras.

As técnicas negacionistas são conhecidas, mas sempre recauchutadas em cada contexto. Uma delas passa por criar dúvidas em afirmações científicas, colocando a ciência como apenas mais uma forma (entre outras) para alcançar a verdade. A guerra ideológica que várias religiões têm com a ciência é disso exemplo, vide a contestação à teoria da evolução. Outra técnica é a de citar as discordâncias entre cientistas para concluir que a verdade ainda está em disputa (ou até para equivaler a verdade a uma qualquer mentira). Veja-se como determinada direita incensou as teses de Nuno Palma apesar dele ser claramente a exceção no panorama dos historiadores nacionais, dando validade às ideias de uma pessoa em detrimento das investigações já validadas de dezenas de historiadores. O mesmo aconteceu com as alterações climáticas, em que as gigantes petrolíferas pagaram estudos (que se comprovaram sem validade científica) para apresentarem uma suposta base científica que negava o aquecimento global. Ainda entre as técnicas mais difundidas de negacionismo estão as teorias da conspiração - lembra-se das armas de destruição maciça no Iraque ou reparou que André Ventura não questionou como foi infetado antes preferiu lançar as dúvidas sobre a origem do novo coronavírus?

Na era das redes sociais, estas técnicas são usadas de forma consciente e com as piores intenções, com a agravante de terem algoritmos que as protegem e promovem. O objetivo é sempre semear a desconfiança e incentivar as clivagens na sociedade até que apareça uma qualquer figura providencial, um salvador. Semear o caos para depois vender a ordem e justificar o autoritarismo, destruindo direitos e liberdades pelo caminho. É aqui que vem Trump à memória e os seus seguidores, como o sósia Bolsonaro. Conhecendo as manhas podemos desmascarar os farsantes.

Artigo publicado no jornal “Público” a 27 de agosto de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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