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O meu Dia de Reflexão

Confesso o desapontamento que senti pelo facto de, durante todo o tempo que durou a mensagem, ter esperado ansiosamente, em vão, que o Sr. Presidente da República desviasse os olhos do teletexto e olhasse para mim.

Era sábado, dia 3 de outubro de 2015, dia de reflexão sobre as eleições legislativas.

Das mil e uma coisas que tinha para fazer, deixei de lado as mil, para nesse dia só fazer uma [a uma]: assistir, pela TV, à mensagem sobre as eleições, proferida pelo Sr. Presidente da República, Prof. Aníbal Cavaco Silva.

Nem jantei, ou melhor, só jantei depois de assistir à referida mensagem. Como disse, pus de parte mil coisas que tinha para fazer. A minha mulher ainda me gritou lá de dentro: 

– Já limpaste a gaiola do canário?

Eu, já sentado confortavelmente no meu sofá, à espera do Presidente da República, era o que faltava ter de ir limpar a gaiola,… alpista espalhada por tudo quanto é sítio... e ainda por cima o raio do canário só faz m... O que vale ao estupor é cantar bem. Digo muitas vezes com os meus botões: “Cantas bem mas não me encantas!”

Correndo o risco de algum mal-intencionado forçar uma leitura de fábula, adianto que desejo poupar o bicho, o pobre, a parecenças com algum figurão da nossa praça. Primeiro-ministro e seu adjunto, obviamente excluídos do pacote dos figurões!...

– Já limpaste o canário? – gritava outra vez a minha mulher lá de dentro…

– Agora não posso! – respondi, assertivo, machicando com a língua.

A TV já a tinha ligado um bom quarto de hora antes da mensagem. Ainda apanhei o fim do telejornal. Estava a dar qualquer coisa sem interesse sobre umas centenas de refugiados afogados, algures no Mediterrâneo. Mesmo no fim, falaram de futebol e, se querem que lhes diga, eu estava tão concentrado na mensagem do Sr. Presidente da República que nem liguei à notícia sobre o defesa lateral do meu clube, que estava em dúvida para domingo por ter dado dois espirros, um durante o treino da manhã do dia anterior e outro já à noite, depois do jantar.

Toca o hino nacional e eis que surge a figura solene do Chefe de Estado. Percorre-me um arrepio na espinha.

Bebi as palavras do Sr. Presidente da República, de uma ponta a outra.

Não duvido que a qualidade e importância dos discursos do Sr. Presidente da República terão contribuído decisivamente para o avanço tecnológico que permite a gravação de programas de TV. Na altura do “saudoso” Presidente Almirante Américo Tomás ainda não se dispunha dessa funcionalidade, mas não ignoro quanto se teria ganho com isso se existisse.

Como costumo fazer nestas ocasiões, para não perder pitada e poder desfrutar sempre que me apeteça, pus o programa a gravar. Tenho-as todas... as mensagens do Prof. Cavaco Silva. Pela importância que adivinhava que viriam a ter, desde há muito que guardo também as entrevistas do futuro Presidente, o Prof. Marcelo.

Confesso o desapontamento que senti pelo facto de, durante todo o tempo que durou a mensagem, ter esperado ansiosamente, em vão, que o Sr. Presidente da República desviasse os olhos do teletexto e olhasse para mim.

Para meter muito bem toda a mensagem na cabeça, puxei a gravação para trás 2 ou 3 vezes. Confesso que alimentei a esperança de que, pelo menos numa das repetições, o Sr. Presidente levantasse os olhos do teletexto e olhasse para mim. Mas não lhe levo a mal, compreendo que estivesse muito concentrado, a bem da Nação. Todos nos lembramos do último 5 de Outubro em que uma pequena desconcentração o levou a pôr a bandeira de pernas para o ar e como isso foi aproveitado por cartunistas mal-intencionados…

Mas o problema provocado pelos olhos colados ao teletexto é o menos, percebi muito bem nas entrelinhas – não sou estúpido – que o Sr. Presidente da República me recomendava um voto ajuizado na estabilidade governamental…

No domingo, consciente da gravidade do momento, até me levantei mais cedo para ir votar. Vesti-me, desci as escadas a correr e saí. Já estava a fechar a porta da rua quando me dei conta, pelo reflexo do vidro da porta, que ainda tinha as calças de pijama vestidas, os cabelos completamente desgrenhados, a cara por lavar. Voltei para dentro, o dia parecia começar mal… Lembrei-me então de seguir à risca as recomendações do Sr. Presidente da República, para organizar o meu tempo no domingo, de forma a não deixar de votar.

Pensei que o poderia fazer depois de lavar os dentes e antes da limpeza da gaiola, mas acabei por decidir que seria entre o levar o cão a passear e a ida à missa.

Assim pensei, assim fiz. Fui votar. O sentido de responsabilidade era tal que me lembro de o boletim de voto me tremer entre as mãos. Sucede que, com tanto preparo, bem me parece que me enganei no quadradinho onde desenhar a miraculosa cruzinha, tacitamente prescrita pelo Sr. Presidente da República. Tanta reflexão para nada! Bom, errei e então? Errar é humano! O meu embaraço com a minha consciência, esse julgo que terá sido facilmente ultrapassado com os três padre-nossos que rezei logo a seguir e que devem ter servido para me redimir e reconciliar com o Bem.

O pior é um país em que gente precipitada como eu vai votar. Valha-nos a Luz que, supostamente, lá do Alto, ilumina a mente do Sr. Presidente da República. Mesmo antes de saber o resultado das eleições, o Sr. Presidente da República já sabia a decisão que ia tomar. Foi isso mesmo o que mais me tranquilizou relativamente ao engano no quadradinho… E para que não faltasse ponderação, o Sr. Presidente da República juntou à de sábado a reflexão de segunda-feira sobre a decisão tomada uns dias antes.

A preocupação com o bem da nação fez com que o Sr. Presidente da República se esquecesse das comemorações do 5 de Outubro que, desta vez, calharam a 5 de outubro, por azar a famigerada segunda-feira a seguir às eleições.

Adivinho a tristeza do Sr. Presidente da República por ter faltado às comemorações da República. Ainda assim, não ignoro que o Sr. Presidente da REPÚBLICA me acompanhará num pujante “Viva a República!”


Nota: Em homenagem a todos quantos contribuíram para a implantação da República, em 5 de outubro de 1910, incluindo aqueles que, como o meu avô, Coronel Augusto César Taveira – na altura, sargento –, participaram na Revolta do Porto de 31 de janeiro de 1891

Sobre o/a autor(a)

Professor aposentado, autarca em Faro
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