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O medo mudou de lado

A derrotada da noite eleitoral foi a democracia estadunidense. Não pelos ataques de Trump, mas pela quase completa conivência do Partido Republicano à sua política de terror eleitoral.

As ruas de Filadélfia estão carregadas de história. Ali nasceu a democracia nos Estados Unidos da América, foi declarada a independência e a redigida a constituição do país. Os quarteirões do Parque Histórico Nacional da Independência ainda preservam as calçadas, as salas e os edifícios que nos fazem recuar mais de dois séculos.

A pitoresca apresentação no Independence Hall, repetida pelo ranger de turno a cada visita guiada, representa o orgulho nacional nesses feitos, marcos da afirmação da igualdade. “Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais” - esta frase histórica cunha esse grito revolucionário de independência, da liberdade contra a opressão colonial, da república contra a monarquia.

A compreensão desse momento fundamental do país é útil para percebermos algumas das particularidades do atual processo eleitoral. Do debate fundador fica uma constatação que se mantém até hoje: os EUA não são bem um país, nem são apenas uma união de estados - são um compromisso entre estas duas possibilidades. Daí o regime de eleição indireta do Presidente e o Congresso ser composto por duas câmaras: a Câmara dos Representantes, com delegados de cada estado na proporção das populações respetivas; e o Senado, com dois representantes por estado.

A Filadélfia é a capital do Estado da Pensilvânia e foi lá que estas regras ficaram definidas há mais de dois séculos. Este é um dos Estados que, quando escrevo, ainda não tem resultados eleitorais. Acredito que aqui se fará história novamente.

A disputa entre Biden e Trump não ficou resolvida no dia marcado. Estamos agora à espera do resultado no prolongamento, esperando que as boas novas tenham vindo pelo correio. Das promessas das sondagens de vitórias retumbantes fica a realidade em que andamos com o coração nas mãos, à espera que caia mais um número, que o refresh do gráfico mostre a barra a chegar ao número mágico de 270.

A derrotada da noite eleitoral foi a democracia estadunidense. Não pelos ataques de Trump, desesperado ao ver o tapete fugir-lhe debaixo dos pés, mas pela quase completa conivência do Partido Republicano à política de terror eleitoral de Trump. Começa a ser difícil perceber onde terminam as malfeitorias do trumpismo e onde começam as do Partido Republicano. A teoria dos pesos e contrapesos já teve melhores dias.

Trump quis parar o jogo a meio - seria quase como chegar ao intervalo e declarar ali o fim da partida porque dava jeito à equipa que estava na frente. Mas em democracia todos os votos contam e não se mudam as regras a meio do jogo. O problema de Trump não é com os votos que chegam pelo correio, é porque não são nele. Os autoritários só gostam da democracia quando ganham.

A desconfiança que Trump tem sobre o voto por correspondência é puramente oportunista. Ainda há poucos meses foi ele quem nomeou para dirigir os Correios daquele país um empresário que tinha sido um dos seus grandes financiadores da campanha de 2016. Por outro lado, a empresa terá perdido o rasto a cerca de 300 mil boletins de voto, concluiu um tribunal. O problema não é haver votos a mais, é terem desaparecido milhares deles. Mas Trump dorme bem com isso, ele sabe que na sua maioria seriam para Biden.

A luta eleitoral irá das urnas para as barras de tribunal. Trump já começou a fazer a guerra judicial para ganhar na secretaria o que não conseguiu ganhar nas urnas. Mesmo assim Trump perderá, estou certo. A tarefa de Biden começará por ser a de juntar as peças de um país dividido pela política e pelas desigualdades.

Há quem diga que a vitória de Biden (acredito que ganhará) sabe a pouco. Essa análise radica na credibilização de sondagens que se mostraram muitíssimo frágeis e não têm em conta o contexto político. Trump estava no poder, usou a sua posição para vencer as eleições, não teve qualquer pejo em jogar sujo nessa disputa: mesmo assim irá perder. E ao contrário do que muitos diziam, que os líderes populistas estavam aí para ficar, Trump cairá sem conseguir a reeleição. Outros começam a ver nas costas de Trump o seu futuro, como se percebe pela reação medrosa de Bolsonaro. A conclusão destas eleições é que é possível vencer a extrema-direita. É um bom momento para se tocar novamente o sino da Liberdade.

Artigo publicado no jornal “Público” a 6 de novembro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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