A estética trans não é uma tendência. Nunca foi. É uma linguagem política construída num contexto de marginalização e exclusão social. Antes de chegar às passarelas e aos feeds, a nossa arte nasceu num contexto em que o corpo não era apenas uma expressão, mas sim uma forma de resistência, uma afronta ao cistheteropatriarcado, era escudo e manifesto.
Grande parte daquilo que é tido hoje como tendência e inovação foi criada por pessoas trans muito antes de ser validada pelo mercado. O que mudou não foi a estética, foi quem a consome.
Num mundo em que as identidades queer e particularmente as trans são sistematicamente invisibilizadas e onde existir é um ato de resistência, a estética torna-se uma ferramenta de afirmação, uma forma de dizer “eu existo e estou aqui” quando tudo conspira para o apagamento.
Para as pessoas trans o corpo nunca foi neutro. A forma como o corpo se apresenta, como este se constrói e se afirma é intrinsecamente política.
A ballroom scene é o exemplo mais claro desta relação estética e política. É aqui que historicamente surgem os momentos de pedagogia e família para estas comunidades tão marginalizadas. O glamour, o voguing, os espetáculos, a performance radical do género não surgiram como futilidade, mas sim como forma de afirmação destas identidades e como estratégia de resistência.
Este legado atravessa hoje a cultura visual contemporânea. Está na maquilhagem que popularizou técnicas como o contouring, uma técnica de maquilhagem desenvolvida por drag queens e mulheres trans muito antes de se tornar tendência entre as mulheres cisgénero. Esta técnica consiste em utilizar o efeito ótico de claro e escuro através de um jogo de luz e sombra para remodelar o rosto, realçando os seus contornos e oferecendo mais estrutura ao rosto.
Está também na moda que desmonta o binarismo do corpo, por meio de saias em corpos masculinizados, ombros largos em silhuetas femininas, o uso de corsets para realçar curvas ou a normalização de saltos altos, muito antes de tudo isto se tornar tendência. Está na performance exagerada, no excesso gestual e comportamental que surgiu inicialmente como crítica às normas sociais de género e como forma de sobrevivência e afirmação.
É importante perceber que toda esta linguagem foi reciclada por artistas pop e revistas de moda muitas vezes sem referência às comunidades que a criaram. Toda esta estética, poses, filtros e narrativas replicam códigos visuais desenvolvidos por pessoas LGBTQI+ agora absorvidos pelo algoritmo como tendência.
É aqui que a questão da apropriação cultural entra para debate, porque não basta buscar referência ou inspiração; existe, sim, uma linha entre exploração e homenagem. Porque afinal, quem lucra com esta estética? Quem está numa posição de decisão? Quem fica sistemáticamente fora deste enquadramento?
A influência da comunidade LGBTQI+ não é decorativa, é estrutural. Ignorar isso é esvaziar politicamente uma estética que nasceu da urgência. É importante não nos esquecermos das origens de muito daquilo que é moda hoje em dia para que não haja um esvaziamento identitário, esvaziamento esse que representa mais uma ferramenta de opressão e apagamento.
Posto isto, fica evidente que o futuro da cultura visual não pode separar a forma do conteúdo; existe aqui uma responsabilidade social. O futuro da moda e beleza não será neutro, ou se reconhecem as suas raízes dissidentes ou continuaremos a explorar a criatividade destes corpos, sem nunca deixar que tenham verdadeiro poder decisivo. Assim, fica claro que tudo é político enquanto a desumanização das identidades LGBTQI+ continuar a existir e a dessiminar-se através de políticas opressivas e discurso de ódio.
A nossa arte não é acessório cultural. É memória, é luta, é futuro. E não pede licença.