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O inferno não são os outros

Às portas da União Europeia, na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, cresce um dos infernos na Terra.

Uma das peças incontornáveis do século XX foi escrita por Jean-Paul Sartre nos idos da década de 40. À Porta Fechada retrata o encontro de três pessoas que chegavam ao inferno. Sabendo ao que iam e tendo uma ideia do que esperar, não encontraram instrumentos de tortura nem carvões em brasa, apenas se um quarto mobilado com antiguidades feias e no qual estavam trancados. Não havia nada de interessante, nenhumas distrações, nem espelhos ou escovas de dentes - tudo o que têm, tudo o que terão para sempre são uns aos outros. Morreram e o que o inferno lhes reserva, a condenação por toda a eternidade, é conviverem uns com os outros. “Cada um de nós é um carrasco para os outros. O inferno são os outros”.

Às portas da União Europeia, na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, cresce um dos infernos na Terra. Entre o arame farpado e as bastonadas, expostos ao frio e à desumanidade, arriscando diariamente a vida, milhares de refugiados são jogados entre interesses políticos mesquinhos. A única coisa que pedem é que os deixem ser pessoas, seres humanos a quem se reconhece direitos e a quem se aplicam os valores que muitos juram defender. Fogem do inferno da fome e da guerra, mas rapidamente percebem que o inferno não é um lugar, é uma assombração permanente. Eles e elas, mais novos ou mais velhos, crianças ou idosos, sabem como há outros que são o seu inferno.

um ditador na Bielorrússia que não hesita em usar pessoas para chantagear a União Europeia, que não sente remorsos quando perdem a vida nem sequer pestaneja quando passam mal. Para um ditador, as pessoas não são gente e as pessoas de outros países são ainda menos. Há um Governo de extrema-direita na Polónia, que faz dos refugiados o inimigo que garante o poder, que lhes dá o desprezo que cola os ódios e engana o próprio povo dizendo que o seu opositor está às portas do país quando na verdade já há muito que se senta nos tronos do poder. E há uma União Europeia que se vai esquecendo da humanidade, daquilo que se dizia um pilar dos povos, o cimento que colava um projeto maior.

Na peça de Sartre, o triângulo de personagens simboliza a falta de qualidades ou empatia: é um narcisista, um masoquista e um covarde. “O nosso inferno são os outros” quando se juntam estas manchas do caráter humano, eles são o inferno de milhares que diariamente morrem às portas da Europa.

“Estamos exaustos, sem tendas para dormir e sem nada para comer”, testemunhava outro dos refugiados, que pagou quase 4000 euros por cada membro da família que trouxe consigo para tentar a sorte na Europa. E enquanto dava o seu testemunho, aviões continuavam a chegar à Bielorrússia e os seus passageiros depois escoltados pela polícia e o exército até à fronteira com a Polónia. Uma ponte aérea feita de vidas de miséria e do descaramento de um ditador que usa estas pessoas como arma apontada à União Europeia.

“Somos como uma galinha numa gaiola” assim se resume um dos refugiados presos entre a Polónia e a Bielorrússia. Enquanto dava estas declarações, a Polónia celebrava o seu dia da Independência deixando as ruas do país para dezenas de milhares de manifestantes nacionalistas. O grito geral era o da defesa do país contra um “ataque de imigrantes do Médio Oriente”.

Quando se deixa despirem os refugiados da pele de pessoas e se permite que se transformem em argumento de chantagem política, é aberta uma caixa de pandora de barbaridade. Esse foi o erro basilar da União Europeia, que moldou a desumana política de fronteiras e a tornou frágil à extorsão de ditadores, seja na Turquia ou na Bielorrússia. Seja até na relação com quem mexe os cordelinhos na sombra, como é o caso da Rússia de Putin.

Silêncio, na voz de Carolina Deslandes, avisa “Não escrevas empatia só para aparecer / Ser empático, é comparecer / É sofrer por ver alguém sofrer / É a ferida no corpo dum outro que insiste em doer”. Nessa ferida global que a todos nos desumaniza, nesse abismo que vai do Mediterrâneo às fronteiras da Polónia, não sejamos para os outros o seu inferno - e não vejamos nos outros o nosso. O inverno está a chegar, mas ainda vamos a tempo de impedir que tome os corações da humanidade.


Artigo publicado no Público, 12 de novembro de 2021.

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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