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O Grande Álibi

Considerar que um liberal aplica a contragosto um programa como o da troika equivale a pensar que alguém de esquerda subiria a contragosto o salário mínimo ou uma qualquer prestação social.

Implementar políticas ditas difíceis implica não só avançar com medidas consideradas impopulares, mas fazê-lo a contragosto. Ou seja, fazê-lo contra a doutrina político-económica que se preconiza. Neste sentido, é tristemente engraçado verificar o argumentário de coragem e simultâneo lamento com que o Governo aplica a atual receita de austeridade. Como se o que estivesse a ser aplicado fosse totalmente contra as linhas programáticas do PSD.

Com a direção mais liberal de que há memória, que nunca se inibiu aliás de mostrar as suas convicções, o receituário liberal previsto no memorando da troika é uma valiosa fonte de legitimação de todo um programa político. Aliás, para um governo que nunca prometeu menos do que profundas reformas liberais, é uma autêntica dádiva.

No programa eleitoral que apresentámos no ano passado e no nosso programa do Governo não há uma dessintonia muito grande com aquilo que é o memorando de entendimento”, afirmou Passos Coelho na passada quarta-feira, sublinhando que o acordo com a troika não consiste numa “obrigação pesada”. “Não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas”, salientou (in Público). Comentários para quê?

Considerar que um liberal aplica a contragosto um programa como o da troika equivale a pensar que alguém de esquerda subiria a contragosto o salário mínimo ou uma qualquer prestação social.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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