É urgente entender que feminismo não é o antónimo de machismo. Ou seja, o contrário de machismo não se chama feminismo, chama-se femismo. E, tal como o machismo, também o femismo pretende humilhar e subjugar o género contrário.
Assim, o feminismo nada tem a ver com a subjugação ou sequer com a perpetuação da desigualdade. Na verdade, o feminismo é a necessidade de defesa e a luta pela sobrevivência numa sociedade desigual e violenta. Porém, o feminismo é também a tentativa de construir um mundo mais justo e respeitador para todas as pessoas.
Evidentemente, há pessoas que mesmo tendo nascido mulheres, tiveram um privilégio que possibilitou não terem tido necessidade de se tornarem feministas. Dessa forma, é natural que pretendam manter o status quo. Aliás, outras há, que mesmo não usufruindo de privilégio, poderão sofrer de machismo internalizado e reproduzem a submissão e a cultura misógina que a sociedade patriarcal lhes incutiu.
Portanto, é urgente reconhecer que é sobre as mulheres que recai a mais antiga das opressões. Além disso, as mulheres não são apenas discriminadas pelo seu género, porque, uma mulher rica não sofre a mesma diferenciação que uma mulher pobre. Uma mulher branca não sofre a mesma desigualdade que uma mulher negra. Uma mulher heterossexual não sofre a mesma segregação que uma mulher LGBTQIA+. Assim como uma mulher local não sofre a mesma discriminação que uma mulher imigrante.
Por conseguinte, o feminismo é uma luta que se intersecciona com todas as outras e que tem uma importância vital na sociedade e na sua consciencialização política. De tal modo que, é nosso dever contribuir para dar visibilidade a todas as mulheres, principalmente às que continuam a sofrer as desigualdades deste sistema, que estatisticamente, continua a não dar salário igual para trabalho igual e continua a não dar às mulheres o mesmo acesso aos cargos de poder. Para além disso, a pobreza continua a atingir essencialmente famílias monoparentais, constituídas por mulheres e seus filhos.
Naturalmente, o feminismo reclama a necessidade de uma sociedade mais segura e pacífica. Notem que, de acordo com os dados do Observatório de Mulheres Assassinadas, entre 1 janeiro e 15 de novembro de 2021 foram assassinadas 23 mulheres em Portugal. Destas, 13 foram mortas no contexto de femicídios nas relações de intimidade (12 femicídios cometidos por homens e um femicídio cometido por uma mulher), 7 foram assassinatos em contexto familiar, 2 assassinatos na sequência de crimes e ainda um assassinato sem motivo identificado (omisso).
Contudo, até resultar na morte, a violência da nossa sociedade patriarcal passa por décadas de tortura verbal, financeira e psicológica. Logo, o feminismo é uma questão de direitos humanos, personificada pelo empoderamento feminino e pela reivindicação de mais segurança, respeito e equidade para todas as pessoas.
Em suma, precisamos de caminhar para uma sociedade onde ser homem, branco, cis, europeu, não seja sinónimo de privilégio. Para isso, precisamos da empatia necessária para nos posicionarmos ao lado das mulheres, indo à raiz do problema. Precisamos entender que contra um sistema criado com base na desigualdade, na exploração e na violência para com a pessoa mais vulnerável, não basta não ser machista, é preciso ser feminista.
Fonte Observatório de Mulheres Assassinadas:
http://www.umarfeminismos.org/images/OMA_Infografia_DadosPreliminares2021.pdf