Um dos maiores flagelos que as cidades têm que enfrentar actualmente é o do trânsito automóvel. Nas últimas décadas, temos presenciado um aumento contínuo do número de veículos em circulação nas cidades portuguesas, acompanhado de um declínio no uso de transportes colectivos e nas deslocações a pé. Para esta realidade, muito contribuem as campanhas de publicidade dos fabricantes de automóveis, ao associar a posse de um automóvel a status social, independência, liberdade e masculinidade. Mas também contribuem em igual medida as políticas públicas que conduzem às insuficiências das redes de transportes públicos e à crescente suburbanização, Como consequência, temos mais poluição atmosférica, mais ruído, mais acidentes rodoviários e, paradoxalmente, menos mobilidade.
A automobilidade é, antes de mais, um problema de saúde pública. A queima de derivados de petróleo por automóveis é uma das principais fontes de poluição atmosférica, libertando para o ar um cocktail de substâncias perigosas para a saúde humana. Problemas respiratórios, asma, imunodeficiência, cancro e doenças cardiovasculares são alguns exemplos de problemas de saúde comuns nas cidades cuja origem pode ser encontrada em parte nas emissões poluentes dos automóveis. No seu conjunto, estas doenças são responsáveis por um número de mortes superior às provocadas por acidentes de trânsito.
Mas a automobilidade é também um problema de qualidade de vida. Cidades congestionadas são cidades em que os tempos de viagem são alongados, reduzindo-se o tempo livre disponível para quem nelas vive. Para responder à crescente utilização do transporte individual, as autoridades públicas optam usualmente por políticas de gestão da oferta, investindo em mais infra-estruturas para automóveis, em vez de políticas de gestão da procura. Como resultado, é usual que um terço do espaço disponível nas cidades seja ocupado com ruas, estradas, parques de estacionamento, túneis e pontes. Se a isto somarmos o espaço ocupado com edificações, sobra pouco, muito pouco, para áreas verdes, equipamentos desportivos e outros espaços públicos de lazer. Ou seja, a cultura do automóvel retira-nos tempo e espaço para o lazer.
Tudo isto é financiado com o dinheiro dos contribuintes. As infra-estruturas que sustentam a automobilidade nunca foram criadas pelas entidades privadas que delas beneficiam, incluindo fabricantes de automóveis e petrolíferas. Estamos a falar de muitos milhares de milhões de euros que todos os anos fluem dos cofres do Estado e das autarquias para financiar o vício do automóvel. Com uma fracção deste dinheiro, poderíamos facilmente oferecer um transporte colectivo público com qualidade, conforto, rapidez e vasta abrangência territorial a todos os cidadãos.
Um poder público que se preocupe com o bem-estar dos seus cidadãos deve investir em políticas de ordenamento do território que reduzam a necessidade de deslocações pendulares longas, em sistemas de transportes públicos que garantam a todos/as o direito à mobilidade e em medidas de restrição da circulação automóvel e de promoção de meios de deslocação não poluentes. Mas é exactamente o contrário o que as nossas autoridades públicas têm feito. As autarquias das principais cidades continuam a dar toda a prioridade ao automóvel no planeamento urbano, discriminando a maioria da população que se desloca a pé ou de transporte público. O governo do PS promete agora agravar o preço dos transportes públicos, desincentivando assim a sua utilização.
Com estas políticas, ficamos mais pobres. Não só teremos de continuar a suportar o custo da poluição, do congestionamento e da dependência energética, como teremos de financiar a infra-estrutura que suporta a utilização do transporte individual. Também aqui se materializa a luta da esquerda, contra a estupidez do “troikismo” e por uma sociedade em que nos possamos mover sem poluir e sem perder tempo no trânsito.