O declínio do Arsenal do Alfeite

porLuís Filipe Pereira

05 de julho 2024 - 12:34
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Hoje aparecem com cara de preocupados, mas esquecem a responsabilidade que têm nesta matéria incluindo altas patentes da Marinha que assistem a tudo isto como se não lhes dissesse respeito.

Para compreender o declínio do Arsenal do Alfeite, é preciso recuar a 1987 quando em Agosto foi formado o XI Governo chefiado por Aníbal Cavaco Silva, foi o 1º governo monopartidário com apoio parlamentar maioritário e foi a Cavaco Silva que ficou a dever-se a lei da aposentação antecipada bonificada, que conferiu a possibilidade a alguns sectores do funcionalismo público (nomeadamente ao Arsenal do Alfeite) que com 30 anos de descontos pudessem beneficiar de um acréscimo de 20 %, para assim completarem 36 anos de serviço e puderem requerer a Aposentação Antecipada Bonificada.

O efeito no Arsenal do Alfeite foi ter ficado desprovido de cerca de 3 centenas dos melhores técnicos operários e engenheiros. O Arsenal ressentiu-se muito desta medida e a partir daí foram sempre crescentes as dificuldades impostas ao Arsenal do Alfeite.

Sucessivos Administradores e Conselhos de Administração foram prometendo a modernização do Estaleiro, modernização que nunca viria a acontecer. Todos sabiam que eram necessárias obras de reparação no Planos Inclinado e substituição dos meios elevatórios cuidados com a Doca Seca entre outras situações de maquinaria e ferramentas.

Mas é sem dúvida em 2009 que o governo de maioria absoluta de José Sócrates (PS) extinguiu o Arsenal do Alfeite e criou a Arsenal do Alfeite SA, contou na altura com o apoio do PSD e do CDS que votaram a favor da extinção do Arsenal.

Na altura, resultou na redução de 600 trabalhadores de 1200 para 600, foi atribuída uma verba de 75 milhões para modernizar o Arsenal o que nunca aconteceu. A EMPORDEF holding que ficou com a responsabilidade da Arsenal SA utilizou 35 milhões para pagar dívidas nos Estaleiros de Viana do Castelo dos quais também eram responsáveis.

A modernização do Arsenal ficou por fazer, os trabalhadores mais qualificados saíram e tem sido sempre a degradação a aumentar, passando pela destruição da Escola de Formação onde se formavam profissionais de acordo com as necessidades do Arsenal. Entretanto a EMPORFEF foi extinta em 2019.

Hoje aparecem com cara de preocupados, mas esquecem a responsabilidade que têm nesta matéria incluindo altas patentes da Marinha que assistem a tudo isto como se não lhes dissesse respeito. Este é mais um caso de insensibilidade e destruição dum sector de excelência que sempre construiu e reparou Navios da Marinha Portuguesa.

Agora, o Ministro da Defesa Nacional declara que a “Defesa recebeu o Arsenal do Alfeite tecnicamente falido e que pagou salários com empréstimo bancário de 2 milhões de euros para pagar salários e cumprir obrigações fiscais. É importante referir que até 2009 o Arsenal sempre cumpriu as suas obrigações, nunca falhou com pagamentos aos trabalhadores nem a fornecedores e se não pode recrutar trabalhadores foi por imposição do Poder Central, talvez já tivessem no pensamento alguma ideia estratégica de acabar de vez com o Arsenal.

Não desistimos de pensar que o Arsenal é indispensável à Marinha Portuguesa assim a Marinha Portuguesa chame a si a responsabilidade de exigir um Arsenal à altura da sua missão que já desempenhou com excelência e mestria.

Ao atual Governo exigem-se declarações esclarecedoras sobre o futuro do Arsenal o Sr. Ministro escolhe o alarmismo e remete responsabilidades para o passado. É preciso cumprir o Arsenal revitalizando-o, no respeito pela Marinha pelos Trabalhadores e Pelo País.

Intervenção na Assembleia Municipal de Almada a 28 de junho de 2024, no período de intervenção dos cidadãos

 

Luís Filipe Pereira
Sobre o/a autor(a)

Luís Filipe Pereira

Formador/Aposentado da empresa Arsenal do Alfeite. Dirigente do Bloco de Esquerda
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