A ausência de preocupação do Governo, traduzida numa delegação total e absoluta de decisão às Universidades e Institutos Politécnicos, resultou numa pesada e incontrolada sobrecarga de trabalhos, nas dificuldades em pagar alojamento e propinas e no aprofundamento das desigualdades já sentidas no contexto académico. Seria ingénuo assumir que estamos todos no mesmo barco, quando essa afirmação é contraposta pelos factos.
Todos os sintomas académicos agressivos desta pandemia vão dar ao mesmo diagnóstico: o risco de abandono escolar a aumentar exponencialmente
A presença física é um dos principais promotores de igualdade no contexto escolar e, sem a mesma, as desigualdades, já há muito sentidas, multiplicam-se. O ambiente em casa, a falta de capacidade de acesso a uma rede de internet boa e de meios tecnológicos para assistir às aulas online falam mais alto do que a vontade das instituições de continuar a agir de uma forma autónoma e desinteressada. E quem nos protege nesta situação?
O Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior Manuel Heitor afirmou, numa entrevista à Antena 1, após um mês de silêncio, que todos os casos de carência do ensino superior, devido à pandemia, estão a ter resposta dos mecanismos da ação social escolar e que nenhum aluno do Ensino Superior iria ser prejudicado pela pandemia. Facilmente podemos concluir que as palavras de Manuel Heitor não correspondem à realidade. A sobrecarga de trabalhos sobre os alunos já faz sentir as suas repercussões e, segundo um novo estudo1 da autoria do professor do ISPA, João Marôco, a percentagem de alunos em burnout subiu de uma forma galopante e a tendência é continuar a esse ritmo até ao final do ano letivo. A temática da Saúde Mental ganhou uma nova expressão, mas não se avistam medidas capazes de lhe fazer frente.
Também no passado mês de abril, foi proposta no parlamento a suspensão do pagamento de propinas, tendo sido rejeitada por: PS, PSD, CDS, IL e Chega. Ora, os alunos do ensino superior, agora mais expostos às fragilidades financeiras e à incapacidade do cumprimento do pagamento das propinas, vêem-se enganados e fragilizados pela única instituição capaz de responder aos seus pedidos de ajuda. A obrigatoriedade do pagamento das propinas agora é sinónimo do abandono ou da suspensão de estudos por parte de centenas de estudantes universitários amanhã. Apesar da medida ter sido reivindicada por muitos e muitas de nós, há quem insista em não nos ouvir e as consequências podem vir a ser nefastas num curto espaço de tempo.
Mas este não é o único problema que os estudantes preveem no seu futuro académico. A falta de meios financeiros para pagar alojamento e a falta de lugares nas residências estudantis serão um impasse para muitos estudantes, impossibilitados de se dirigir às suas instituições todos os dias.
Das questões sanitárias à necessidade de reforço dos mecanismos de Ação Social, da suspensão da propina ao apoio psicológico, da urgência de medidas inovadoras no campo pedagógico à distribuição de material informático e um bom acesso à internet para todos, os próximos meses vão ser um verdadeiro teste ao Ministro que tutela a área e às Instituições de Ensino Superior.
Todos os sintomas académicos agressivos desta pandemia vão dar ao mesmo diagnóstico: o risco de abandono escolar a aumentar exponencialmente. Alguns de nós, ainda frequentando o Ensino Secundário, lembramo-nos bem dos efeitos nefastos da crise financeira que o país viveu e das medidas de estrangulamento do Estado Social durante o período da Troika. Não queremos repetir a experiência. O melhor combate ao abandono escolar não se faz à posteriori.
Nota:
1 Marôco J. & Assunção, H. (2020) Burnout e Envolvimento no Ensino Superior