Karoline Leavitt é uma porta-voz da Casa Branca, nos EUA, que se tornou notícia na semana passada quando os Serviços de Imigração e Fronteiras (em inglês Immigration and Customs Enforcement – ICE) fez a detenção da sua cunhada Bruna Caroline Ferreira, de nacionalidade brasileira. Bruna reside no país desde 1998 e foi detida quando ia buscar o filho, de 11 anos, à escola.
O ICE é a polícia com o maior orçamento nos EUA e tem como objectivo levar a cabo uma agenda persecutória que visa, fundamentalmente, capturar milhares de imigrantes por dia.
Karoline, enquanto membro do governo de Trump, apoia as políticas do presidente norte-americano contra os imigrantes. Tricia McLaughlin, porta-voz do Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) – colega de Karoline, portanto –, classificou a sua cunhada como uma “estrangeira criminosa ilegal”, apontando-lhe uma alegada agressão física, entretanto desmentida pelo advogado: “Não tem qualquer cadastro criminal”.
Este drama familiar e social está bastante ilustrado na literatura e cinema. A materialização deste drama não é coincidência ou imitação, pelo contrário, a arte é que se adapta a realidades por demais evidentes.
Em Portugal não difere. Com a criação da Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (UNEF), que começou a operar em Agosto deste ano, o país passou a ter o equivalente ao ICE norte-americano. Aquando da sua criação, falava-se, em surdina, que esta unidade teria livre-trânsito para interpelar as pessoas nas ruas e instituições para exigir a apresentação de documentos de residência aos imigrantes. Mas quais pessoas? Em quais ruas e instituições?
A operação policial no centro comercial Babilónia, na Amadora, realizada no dia 29 de Novembro, equipara-se às operações do ICE e responde às perguntas acima. Ela partiu do princípio de que centenas de pessoas estrangeiras que trabalham e frequentam aquele espaço são suspeitas de serem “criminosas ilegais”.
A escolha do centro comercial na Amadora não foi feita aleatoriamente, nunca é. Operação desta natureza não é realizada no centro comercial Vasco da Gama, Amoreiras, Norte Shopping ou CascaiShopping. É evidente que a operação foi dirigida contra aquelas pessoas por serem estrangeiras pobres. Esta combinação – estrangeira + pobre – é uma operação matemática cujo resultado é igual a ser uma pessoa criminosa. Só assim se compreende o encerramento de um centro comercial em plena hora de ponta por uma operação policial. Todas as pessoas utentes daquele espaço são suspeitas de serem “estrangeiras criminosas ilegais”. Os negócios que ali realizam são suspeitos, daí justificar-se o seu encerramento durante horas sem quaisquer preocupações quanto aos prejuízos económicos que a paralisação origina às proprietárias daqueles empreendimentos e suas famílias. É uma desprotecção completa às famílias.
Uma operação que encerra os negócios por cinco horas seguidas não se realiza nos centros comerciais Vasco da Gama, Amoreiras, Norte Shopping ou CascaiShopping porque não é admissível a paralisação dos negócios de pessoas nacionais da classe média e alta, logo, insuspeitas de serem criminosas. Como se percebe, a cor da pele, a nacionalidade e o peso da carteira é determinante para a devida classificação de quem são as pessoas “estrangeiras criminosas ilegais”.
A operação no Babilónia resultou na detenção de três pessoas e a apreensão de dez telemóveis, três computadores e dois tabletes roubados, depois de 115 estabelecimentos fiscalizados. Todas as comerciantes e clientes ficaram retidas naquele espaço por serem suspeitas até provarem o contrário, que ocorreu depois da minuciosa revista e apresentação de documentação pessoal, conforme vários relatos, como o de uma cidadã portuguesa negra.
Discurso de ódio com livre-trânsito
Como Lídia Jorge referiu no discurso de 10 de Junho deste ano, a população portuguesa “tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas”. Ao vermos a biografia de muitos dirigentes políticos actuais e anteriores é fácil concluir que assim o é. Por isso mesmo, uma situação como aquela registada nos EUA com a familiar da porta-voz da Casa Branca pode naturalmente ocorrer em Portugal. E quem defende a unidade e protecção das famílias não pode compactuar com este desmantelamento das mesmas, como ocorre no regime legal de reagrupamento familiar.
O discurso de ódio exacerba-se cada vez mais na sociedade portuguesa, e isto origina o clima ideal para a perseguição dos imigrantes e outras minorias, como as vítimas de ciganofobia. Estas pessoas estão desamparadas, sem voz, invisibilizadas. Estão em perigo real.
A operação policial que confinou centenas de pessoas durante cinco horas no centro comercial não mereceu o indispensável repúdio público. Se fosse num daqueles centros comerciais referidos, o Carmo e a Trindade teriam caído. Como foi na Amadora, não interessa. Os seus direitos foram espezinhados sem crítica de quem tem voz na esfera pública. É este silenciamento que torna o imigrante alvo de sevícias, que o desumaniza. É assim que se percebe o aumento dos crimes contra imigrantes revelado no último Relatório de Segurança Interna (RASI).
A violência contra os imigrantes tem aumentado em proporção com o discurso de ódio, mas há marcos legais, e a eliminação da manifestação de interesse é um deles. A extinção deste mecanismo de regularização gradual de imigrantes transformou milhares de imigrantes em pessoas vulneráveis para as redes de exploração laboral, este eufemismo para escravização.
Nos últimos meses ficamos a saber de vários casos em que imigrantes foram vítimas. O mais recente tem como protagonistas militares da GNR e polícias da PSP que escravizavam centenas de imigrantes em situação irregular, mantendo-os sob coacção através de violência física e de ameaças constantes.
Medidas e discursos políticos estão na base da crescente violência contra os imigrantes, que criminaliza imigrantes pobres, acusando-os de criminosos ilegais, até mesmo quando são vítimas.
Casos de escravização de imigrantes continuarão a se verificar enquanto milhares de imigrantes aguardam pela regularização da situação migratória, dormindo às portas das delegações e sede da AIMA. E os esclavagistas agradecem porque têm garantida a mão-de-obra escravizada.
Artigo publicado em publico.pt a 10 de dezembro de 2025