Só se admira com o resultado das eleições legislativas quem não compreendeu a jogada de António Costa em outubro. O objetivo sempre foi a maioria absoluta. No entanto, para a conseguir, fez a jogada política mais perigosa que podia fazer, esvaziou os partidos de esquerda, o que poderá custar muito caro a Portugal.
Reparem, António Costa só procurou a esquerda quando precisou dela. Em 2015, ficou em segundo lugar nas eleições e procurou-a para criar a geringonça. Trazia alianças, contrato escrito e juras de amor contra o corte dos direitos dos trabalhadores.
Contudo, em 2019 e 2020, já só precisou de entender-se com o PCP, para aprovar os orçamentos. No entanto, em 2021, achou que já não precisava de se entender com ninguém e assumiu uma posição de arrogância.
Portanto, António Costa, termina o ano, vitimizando-se e colocando-se no centro das atenções, convencido pelo crescendo de vitórias políticas. Vejamos, as presidenciais não deixaram de ser uma vitória sua, apoiando implicitamente o conservador Marcelo Rebelo de Sousa. Porém, dessa forma, deixou a direita tradicional órfã de candidato, abrindo um enorme espaço à direita, ajudando à sua reconfiguração. Assim, António Costa esvazia Rui Rio e estende a passadeira vermelha a Ventura como único candidato presidencial de oposição. Com efeito, nessa eleição, o líder da extrema-direita fica em terceiro lugar, com 12%, quase à frente de Ana Gomes, candidata filiada no PS, que não teve o apoio do seu próprio partido. O PS oficialmente não apoiou ninguém, mas, como sabemos, quem não escolhe um lado, escolhe sempre apoiar o lado do mais forte, neste caso, Marcelo Rebelo de Sousa.
Seguidamente, embalado pela gestão da pandemia, pelos resultados positivos da vacinação e pela vitória nas autárquicas, o estratega altivo António Costa força uma crise política, para assim provocar eleições antecipadas. Desta forma, capitaliza em votos o medo e a incerteza política que semeou, depois de encurralar a esquerda entre a espada e a parede. Só se admira com o resultado das eleições legislativas quem não compreendeu a jogada de António Costa em outubro. O objetivo sempre foi a maioria absoluta. No entanto, para a conseguir, fez a jogada política mais perigosa que podia fazer, esvaziou os partidos de esquerda, o que poderá custar muito caro a Portugal.
Desta maneira, a maioria dada a António Costa, é um cheque em branco que mostra que não aprendemos nada com a governação de José Sócrates. Assim, nos próximos quatro anos, estaremos reféns de políticas que subsidiam o liberalismo, restando-nos apenas as esmolas e a caridade de centro-direita, que nada mais são do que a garantia de perpetuação da desigualdade. Na verdade, conquistámos a liberdade há quarenta e oito anos, mas, parece que temos um enorme anseio de ser cativos.
Portanto, jogadas extremas trazem perigo extremo. Ou seja, em pleno século XXI, Portugal passa a ter como terceira força política um partido de extrema-direita, com um grupo parlamentar racista, xenófobo, machista e LGBTQIA+fóbico, que consegue eleger mais deputados do que as páginas do programa que apresentou. Desse modo, o projeto de retrocesso civilizacional da extrema-direita é uma ameaça que se faz não só às pessoas racializadas e de etnia, não só às mulheres, não só à comunidade LGBTQIA+, mas a todas e a todos.
Finalmente, António Costa conseguiu impor o seu programa, custe o que custar, a quem custar. Que o digam os partidos da esquerda que lembraram na pele "quem se mete com o PS, leva".