A fórmula foi fácil: enunciados simples e curtos, tão mais simples quanto maior a quantidade de pessoas (“massa”) se quer atingir; a utilização da redundância, a repetição de um conceito que facilita a sua memorização; e o apelo direto às emoções das pessoas; foram ingredientes basilares da propaganda nazi, que levou a que se acreditasse num facto independentemente da sua veracidade ou adequação à realidade.
Esses ingredientes necessitaram de um meio de divulgação chamativo, abrangente e eficaz, que pudesse alcançar o maior número de pessoas possíveis. A propaganda visual, nomeadamente os cartazes e os panfletos, cumpriram esse propósito, sendo dos meios mais utilizados pela propaganda nazi. Mas, também o foram os anúncios no cinema, antes e no intervalo das projeções, e a própria realização de filmes (cujo Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl, é o expoente máximo), direcionadas a uma imagética do líder forte e carismático e da criação da teoria do” bode expiatório” para a situação económica da Alemanha pós I Guerra Mundial.
Em Portugal, em 2025, qualquer semelhança com (aquela) realidade não é pura coincidência. O líder do partido de extrema-direita com representação parlamentar, agora candidato à presidência da República, mimetiza todas as técnicas de propaganda que conduziram à ascensão do partido nazi e à II Guerra Mundial nas décadas de 30 e 40 do século XX.
Os cartazes do candidato ultranacionalista e xenófobo, que poderão preencher o tipo legal do crime de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, previsto e punido pelo artigo 240.º do Código Penal, são o expoente máximo da utilização das técnicas nazis de propaganda. No entanto, os cartazes por si só não seriam suficientes. Claro que puseram em alvoroço as redes sociais e os grupos de WhatsApp, cumprindo um dos desejos do proto caudilho, que é o de ser amplamente discutido, o que amplifica a divulgação da mensagem.
Porém, a nossa comunicação social faz todo o trabalho de propaganda do líder do partido extremista, racista e xenófobo. Entre outros exemplos, temos a pesquisa de João Pinhal, jovem estudante de jornalismo da Universidade Nova de Lisboa, que refere que André Ventura deu 61 entrevistas às televisões públicas e privadas, entre outubro de 2019 e Junho de 2024. Já no ano de 2025, numa pesquisa rápida identificam-se pelo menos 9 entrevistas televisivas: 2 na RTP (19 de março e 4 de junho); 1 na CMTV (2 de maio); 1 na SIC/SIC Noticias (24 de outubro); e 5(!) no canal NOW (9 de abril, 5, 18 e 20 de agosto e 19 de setembro).
Esta realidade pode levar-nos à seguinte interrogação: se facilmente identificamos as estratégias de propaganda requentadas do líder do partido de extrema-direita, se essas estratégias passam por repetir mensagens simplistas e pela repetição de chavões que não necessitam de reflexão, porque é que os órgãos de comunicação social portuguesa se prestam a servir de mecanismo de divulgação dessas mensagens? Não estão conscientes de que estamos perante mensagens racistas e xenófobas e poderão configurar crimes?
Sabemos que a procura do lucro por parte das cadeias privadas de televisão, e também da gestão privada que a RTP assumiu com a presente administração, explica a soberba destas, mas a que custo? A resposta mancha de racismo e xenofobia as mãos das televisões pública e privadas portuguesas. A resposta revela, ainda, a submissão ao ódio e à opressão às pessoas mais fracas e vulneráveis, como as pessoas migrantes, as mulheres e as pessoas lgbtqi+. Mas faz também lembrar a fábula do burro, do tigre e do leão, de autor desconhecido, e que se conta numa penada:
É a história de um burro e de um tigre que discutem sobre a cor da relva. O burro, mesmo perante o relvado verdejante, afirma que a relva é azul e o tigre diz ser verde. Não conseguindo concordar, o tigre e o burro levam a questão a um leão, que decide punir o tigre. Assumindo que a relva é, efetivamente, verde, o leão explica que o castigo que deu ao tigre não tem nada a ver com a questão da cor. A punição deve-se ao facto de uma criatura corajosa e inteligente como o tigre ter perdido o seu tempo a discutir com um louco fanático que não se ajusta à realidade ou à verdade, mas apenas à vitória das suas crenças.
Importa que sejamos mais como este leão, que tenhamos a sagacidade, a sabedoria e a responsabilidade, não para punir, mas para não oferecer ao burro a atenção que deseja.
É que ao burro a verdade não interessa. O ego, o ódio e o preconceito levam-no a deturpar a verdade para impor os seus interesses.
Quem é o burro? Esse já todos e todas percebemos quem é.