Volvido um mês desde as eleições em que o Bloco de Esquerda viu reduzida a sua representação parlamentar, à esquerda continuamos a tentar compreender o que nos aconteceu — e a dialogar. Este é, por vezes, um momento propício a sobrevalorizar certos detalhes, erguendo-os como causas absolutas da hecatombe com que nos deparamos. É sempre útil explorar tudo e debater a fundo. É nesse espírito que trago à reflexão uma crítica que tenho ouvido com alguma frequência — mais do outro espectro político, é certo — e que me levou até a pensar sobre um dos alicerces fundamentais dos partidos de esquerda: o Bloco fala mesmo demasiado da Palestina?
Muito há para debater acerca da nossa estratégia de comunicação, mas vou focar-me nesta análise: para alguns, Mariana Mortágua afastou o povo por usar um keffiyeh. Argumenta-se que o povo português “não quer saber” da Palestina e que esse tema não gerou identificação nem apoio nas pessoas. Convido essas pessoas a ter uma visão diferente sobre o que é estar num partido que propõe uma visão alternativa ao capitalismo e um modelo de sociedade distinto do atual: o nosso trabalho diário é (ou deveria ser) constituído por quebrar tabus e derrubar ideias feitas que habitam o senso comum. Isso nunca foi fácil. Mas foi justamente por não seguirmos o caminho mais cómodo que conseguimos colocar temas como o controlo de rendas no centro do debate público — e demonstrar que esses mecanismos não são pecado pela Europa fora, ao contrário do que o discurso dominante tentou fazer crer durante anos.
Devemos também lembrar que muitos dos direitos que hoje tomamos por garantidos tiveram de percorrer um longo caminho até serem instituídos, através de muita luta — por exemplo, o direito ao voto das mulheres, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a semana de trabalho de 40 horas, fruto de longas lutas sindicais e sociais — e também que o abolicionismo já foi uma luta profundamente impopular, apesar de hoje ser raro alguém ser contra essa corrente. Isto deve inspirar-nos a defender o que está certo, e não apenas o que nos possa garantir o próximo sucesso eleitoral, reconhecendo que um dos alicerces fundamentais da esquerda é a capacidade de transformar o ideário comum — e não apenas agir como o seu eco.
Infelizmente, uma ideia que propaga o senso comum no nosso país e na Europa é a narrativa racista que desculpabiliza e relativiza o genocídio que há anos ocorre na Faixa de Gaza. Deve o Bloco ser complacente com esse consenso, na ânsia de colher melhores resultados eleitorais? Não. Em primeiro lugar, porque — na minha opinião — o resultado eleitoral não se deveu à nossa firmeza e vocalidade em relação à Palestina. Em segundo lugar, porque os partidos de esquerda, com visões transformadoras da sociedade, não podem limitar-se a repetir ideias já instaladas na mente das pessoas. A esquerda deve ser voz do povo e responder às suas aspirações, mas também deve ambicionar transformar o senso comum, para assim se tornar um motor de superação do capitalismo.
Temos, claro, de garantir que conseguimos comunicar essas mensagens transformadoras com uma boa estratégia e sem a complexidade que muitas vezes atravessa os discursos da esquerda — o que, devo dizer, não acho que tenha acontecido nesta campanha, que teve mensagens claras. Mas dizer que devemos falar menos sobre a chacina a que está sujeito o povo palestiniano porque, eventualmente, não rende muitos votos, parece-me faltar à verdade — e mesmo que não faltasse, não seria razão para que um partido de esquerda internacionalista, que defende a solidariedade entre os povos, deixasse de apoiar este povo.
O que se passa em Gaza, diante dos nossos olhos e ecrãs, expõe a falência moral das nossas instituições e desafia o limite da nossa humanidade. Alegar neutralidade é ser conivente com a normalização de um genocídio. As instituições não mudarão sozinhas. Só o farão quando forem confrontadas por uma cidadania activa, incansável, sem medo de ser incómoda. Usar um keffiyeh não é, por si só, suficiente. Mas também não é um gesto vazio ou meramente performativo — é um símbolo de solidariedade, de recusa da indiferença e de pertença a uma luta que não é só dos outros.