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O Ano do Coelho

Por cá, este ano representou precisamente o contrário do que é professado pelo calendário chinês. O Coelho português caraterizou-se sobretudo por insensibilidade, irresponsabilidade, obstinação e pobreza de espírito até.

Segundo o horóscopo Chinês, em Fevereiro de 2011 iniciou-se o ano do coelho, considerado o melhor da astrologia daquele país. Simboliza nomeadamente a benevolência, a calma, a responsabilidade, a graciosidade, a bondade e a sensibilidade. É o signo mais invejado. Em Portugal, o ano do Coelho começou em Junho de 2011, estando agora em curso o balanço sobre o mesmo. Por cá, certamente por estarmos no extremo oposto do planeta, este ano representou precisamente o contrário do que é professado pelo calendário chinês. O Coelho português caraterizou-se sobretudo por insensibilidade, irresponsabilidade, obstinação e pobreza de espírito até.

Foi um ano tão atribulado que a maioria dos portugueses com certeza pensa que o atual Executivo está em funções há bastante mais tempo. Mas não, apenas passou um ano. Um ano em que o país conseguiu recuar nos mais diversos indicadores com certeza mais do que uma década. Um ano de desemprego, de perda de salários, de aumento de impostos, de recuo do Estado Social, de perda de perspetivas de futuro. Um ano em que a dignidade portuguesa bateu no fundo.

E tudo eventualmente poderia ser menorizado se existissem perspetivas de que o próximo ano ou os que se seguem fossem melhores. Mas as perspetivas, a existirem, com certeza baseiam-se mais em normais aspirações de quem continua a bater no fundo do que em qualquer tipo de objetividade prospetiva. Apesar da mensagem veiculada de que o país tem sido um bom aluno, continua sem existir um único indicador que demonstre que Portugal está no bom caminho. Um único. Só perfeitos lunáticos podem ver nos elogios das agências de rating ou nas descidas das taxas de juro no financiamento externo como um sinal de que já existe luz ao fundo no túnel. A realidade demonstra sim o que há muito era evidente: um problema estrutural, com origem na desregulação dos mercados financeiros internacionais e que se adensou com a incapacidade da Europa reagir como um todo coeso e solidário, jamais pode ser resolvido com soluções assentes na culpabilização dos países que foram vítimas do problema.

Em jeito de balanço, o (Passos) Coelho elogiou esta semana a paciência dos portugueses perante os sacrifícios que lhes foram pedidos ao longo deste último ano. A paciência tornou-se por isso na suposta grande qualidade nacional deste ano que passou. Se continuarmos a seguir o calendário chinês, ao ano do coelho segue-se agora o ano do dragão, símbolo de vitalidade, entusiasmo, orgulho e ideais elevados. Esperemos (e façamos com) que neste próximo ano não se passe novamente em Portugal o oposto do que professa o calendário chinês. Por duas razões muito simples: o Coelho não merece a paciência dos Portugueses e, pequeno pormenor, o país não a aguenta.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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