O ABC de como perder a liberdade

porAna Azevedo

15 de abril 2026 - 15:27
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Celebramos abril todos os anos, mas é urgente deixar de celebrar o passado para reconhecer o presente e assim garantir que a liberdade fará parte do futuro das minhas, das nossas crianças. Porque a liberdade não se perde de uma vez. Entrega-se assim, letra a letra.

Sou mãe de duas crianças, talvez por isso obrigo-me a olhar para o futuro com mais atenção do que por vezes me é confortável. Todos os anos em abril lhes falo de liberdade, do que foi conquistado, do que mudou e do que nunca mais queremos repetir. Quero manter vivo neles o quanto o meu pai sonhou, acreditou e lutou para hoje podermos fazer e dizer o que nos vai no coração.

Este ano, porém, não falarei de liberdades conquistadas, chegou o momento em que tenho de lhes falar de outra coisa. Uma coisa realmente importante. Falarei de como se perde a liberdade. Terei de lhes explicar que não se perde de repente, que não haverá avisos e que não haverá um dia em que tudo muda. Terão de ser vigilantes, pois a liberdade perde-se devagar, com silêncios, com decisões e escolhas que parecem banais.

E então pensei, como seria o ABC sobre perder a liberdade? Como seria se o colocasse num manual? Provavelmente seria assim:

“O ABC de como perder a liberdade”

A - Acredita que isso nunca te vai acontecer
Aqui não. Agora não. Isso é coisa de outros.

B - Banaliza tudo
Factos, opiniões, mentiras. Tudo ao mesmo nível, nada pesa, nada se confirma.

C - Cansa-te de pensar
Reagir é mais rápido. Dá menos trabalho.

D - Deixa de dizer o que pensas
Não vale a pena. Vai dar chatice.

E - Encaixa
Discordar cansa. Pertencer é mais fácil.

F - Faz de conta que não é contigo
Há sempre alguém mais responsável ou que se preocupa mais.

G - Gosta, partilha, comenta
E chama a isso participação ativa.

H - Habitua-te
Ao ruído. À pressão. Ao ódio constante.

I - Ignora os sinais
Nada mudou assim tanto.

J - Justifica tudo
“Também não é assim tão grave.”

L - Limita-te ao que já concordas
O resto incomoda.

M - Mede tudo pela reação dos outros
Se agrada a muitos é porque está certo.

N - Normaliza
Com o tempo, tudo parece aceitável.

O - Opina sem saber
Mas sempre com muita certeza.

P - Prefere conforto à verdade
A verdade exige mais de ti

Q - Questiona menos
Não compensa e podes não ser aceite.

R - Repete
Parece pensamento.

S - Silencia-te
É mais seguro.

T - Torna tudo superficial
Nada merece aprofundamento.

U - Usa o humor para desvalorizar
Assim nada é sério.

V - Vive para não incomodar
Liberdade com limites invisíveis.

X - “Xinga” quem discorda
Substitui argumento por ataque, assim enervas e fazes-te ouvir.

Z - Zero reação

Assim, sem drama, sem ruturas, sem um momento claro em que tudo mudou.
Uma sucessão de pequenas cedências, quase impercetíveis e a liberdade já não é bem aquilo que era.
Não foi tirada à força, foi sendo entregue, esquecida, deixada para trás.
O mais inquietante é que quando finalmente se nota, já ninguém sabe dizer o que mudou, onde começou, nem quando deixou de ser defendida.

Celebramos abril todos os anos, mas é urgente deixar de celebrar o passado para reconhecer o presente e assim garantir que a liberdade fará parte do futuro das minhas, das nossas crianças.

Porque a liberdade não se perde de uma vez. Entrega-se assim, letra a letra.

Ana Azevedo
Sobre o/a autor(a)

Ana Azevedo

Educadora social, presidente da associação Art'em Sintonia. Ativista comunitária nas áreas da sustentabilidade, economia circular e educação. Feminista e defensora da participação cívica local.
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