A nova fase do imperialismo e a guerra à espreita

porDaniel Moura Borges

11 de outubro 2024 - 23:24
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A agudização das crises económicas mundiais ou nacionais construirá pressão para garantir o investimento estrangeiro lucrativo e para reestruturar a política. É para isso que serve a guerra.

A geração que nasceu e cresceu desde a viragem do século só conhecia, até agora, uma realidade mundial: a ordem unipolar imposta pela dominação dos Estados Unidos da América. Mas o mundo unipolar, como o prova a História, foi uma exceção à regra. O desenvolvimento de outras potências capitalistas à escala mundial vinha como que enchendo o barril de pólvora, e os conflitos regionais acenderam o rastilho.

A escalada militar no Médio Oriente continua e a guerra na Ucrânia não tem fim à vista. Os Estados Unidos da América apostam militarmente nestes dois conflitos para estancar a sua perda de influência enquanto a China expande a sua influência por todo o mundo, concentrando-a principalmente em África. A União Europeia, perdida económica e politicamente nesta disputa e na nova ordem multipolar, prepara-se para a guerra. Vejamos então estas tendências uma de cada vez.

A hegemonia militar e política que os Estados Unidos da América detinham sobre o mundo não lhes foi meramente “roubada”. A dominância unipolar estava em decadência acentuada, a NATO estava em “morte cerebral”, e a economia americana foi feita refém da sua própria política de exportação de capitais. Isso não impediu a NATO de continuar a pressionar sobre o leste europeu contra o principal aliado da China ou de manter o seu apoio a Israel, mas nos últimos dez anos, o bloco ocidental foi perdendo a sua relevância militar. Agora, aposta nos confrontos indiretos com a Rússia e o Irão para reafirmar-lá.

A União Europeia, economicamente subalterna e militarmente inexistente, reage à afirmação de um novo bloco económico-militar com a surpresa de quem ainda não tinha percebido que era irrelevante. E por isso mesmo procura afirmar-se da forma mais lógica possível dentro do sistema capitalista: desenvolvendo a indústria de armamento e preparando-se para o usar. Afinal, há quem tenha lembrado que as bombas são produzidas para ser usadas.

A China, por seu lado, aproveitou-se do desenvolvimento da economia para operar um imperialismo mais inteligente. Usando a generosidade como tática, o capitalismo chinês tem conseguido promover a expansão económica para ultrapassar a saturação dos seus mercados e para despistar a inevitável crise que se adivinha com o aumento das hipotecas e a subida do desemprego jovem, alargando inequivocamente a sua área de influência.

Só que as crises económicas não podem ser evitadas para sempre, mesmo através do investimento na indústria militar ou da exportação de capitais. A agudização das crises económicas mundiais ou nacionais construirá pressão para garantir o investimento estrangeiro lucrativo e para reestruturar a política. É para isso que serve a guerra, e os tempos que estão por vir darão razão a quem dizia que o imperialismo não é só uma política, é uma fase imposta aos governos capitalistas pela situação económica.

Daniel Moura Borges
Sobre o/a autor(a)

Daniel Moura Borges

Militante do Bloco de Esquerda.
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