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A normalidade é uma ilusão, a crise não

A pandemia da covid-19 pode ter redefinido a “ideia de normalidade” para os privilegiados, mas para os excluídos, marginalizados e discriminados da Índia o dia a dia já era de exceção.

A perturbação da vida quotidiana, devido à pandemia de covid-19 na Índia, recordou-me a decisão chocante de Narendra Modi, em novembro de 2016, de desmonetarizar 86% do total de dinheiro em circulação na Índia; o desaparecimento abrupto deste dinheiro estropiou as cadeias de abastecimento e levou a perdas de emprego sistemáticas que tornaram a vida pior para os mais pobres na Índia. Esta decisão perturbou as suas vidas normais de maneira semelhante ao que a pandemia está a fazer. Devido à covid-19, como noutros lados, o Estado indiano enfrentou uma suspensão da normalidade. O que quer dizer normalidade para a população indiana marginalizada? A quem serve esta normalidade? É esta a pergunta que temos de fazer.

Bem, para milhões de trabalhadores jornaleiros essa “normalidade” pode muito bem ser uma ilusão. Durante o confinamento indiano, centenas de trabalhadores migrantes morreram ou desapareceram da superfície da sociedade sem deixar nenhum traço. O que significaria a normalidade para eles, pergunto-me? O professor Boaventura de Sousa Santos pensa que as vidas das populações mais vulneráveis não são uma exceção relativamente à situação normal. Os trabalhadores jornaleiros, os vendedores de vegetais, os camponeses pobres, os vendedores de rua, os sem-abrigo, são todos parte desta normalidade da exceção. Eles sempre viveram numa situação terrível, uma vida não-normal, sendo essa a sua normalidade. Estas pessoas que habitam espaços abjetos, como Julia Kristeva os teria chamado, sobrevivem com escassos salários diários, enfrentam violência policial e apatia da sociedade em geral diariamente; possivelmente, a normalidade é apenas uma ilusão para eles.

O confinamento nacional na Índia durante a pandemia da covid-19 deslocou severamente a população migrante. A pandemia não é apenas uma situação de crise claramente oposta a uma situação normal; para milhares de trabalhadores migrantes – incapazes de lidar com a fome – que foram forçados caminhar durante centenas de quilómetros, descalços, para voltar às suas aldeias, sem comida e transportes, alguns dos quais morreram no caminho, esta crise é permanente; eles não são uma exceção a esta chamada normalidade. Já tinham sentido a perturbação das suas vidas quotidianas tantas vezes que esta “normalidade” tinha perdido sentido para eles.

As suas vidas foram sequestradas pelo discurso da normalidade; fazendo parecer que tinham vivido até então uma vida normal como a maior dos seus compatriotas. Contudo, o facto é que têm estado presos num círculo inescapável de crise pelo Estado, pelas empresas e pelas classes médias privilegiadas. Vivendo principalmente em bairros de lata, sentem esta crise através da pobreza extrema, fome, doença e desigualdades salariais. A crise é uma parte essencial das suas vidas, enquanto que a ideia de “vida normal” não existe.

Eles são o alicerce invisível das sociedades visíveis sobre as quais a nação e o Estado são construídos. Dos catadores aos agricultores, sem eles a sociedade indiana não funcionaria. Para 450 milhões de trabalhadores indianos do setor informal, a vida nunca foi normal. A sua vida interessaria ao Estado indiano? Sinceramente duvido disso. Sem proteção de saúde, com más condições de trabalho, vivendo em habitações a abarrotar, sem segurança social e baixos salários, as suas vidas sempre estiveram num estado de permanente crise mesmo nos chamados “tempos normais”.

Durante o infame confinamento indiano, foram principalmente os corpos mortos de esfomeados, pobres, pedintes, desempregados, trabalhadores migrantes, mulheres e crianças que ficaram espalhados por todo o país. Mesmo em tempos normais, eles já morriam dessa forma: devido à fome, à falta de cuidados de saúde, à desnutrição, aos suicídios por dívidas, à violência de Estado e devido à discriminação de casta. Apesar de tudo, foi durante estes tempos anormais que as suas mortes desencadearam mais atenção e simpatia. Contudo, os que estavam vivos, continuavam a morrer lentamente devido ao desemprego, à inflação crescente e à sua incapacidade de comprar alimentos. A mudança de paradigma necessária para a mudança social ainda está por acontecer na sociedade indiana.

De facto, a pandemia perturbou profundamente as vidas de milhões de pessoas globalmente. Porém, foi a incapacidade da liderança necessária para lidar com a pandemia eficazmente que exacerbou esta crise. O caos governamental organizado levou a uma crise humanitária de proporções épicas, multiplicou as desigualdades existentes e a exclusão das populações marginalizadas.

Nestes tempos, a capacidade do Estado de providenciar as necessidades básicas às suas populações mais vulneráveis está a ser testada a fundo. Numa crise assim, uma liderança eficiente pode conseguir afastar uma sociedade de um desastre iminente como aconteceu em Portugal e na Nova Zelândia.

Em Portugal, foi adotada uma abordagem humanista para lidar com a pandemia; deu-se tempo às pessoas para se estabelecerem antes do estado de emergência ser aplicado (na Índia foram dadas apenas quatro horas depois do anúncio de confinamento), ninguém foi brutalizado pela polícia e os transportes públicos foram totalmente grátis para toda a gente. Contudo, fiquei triste ao ver como, em Lisboa (onde permaneci durante o confinamento), aos membros das comunidades asiáticas, particularmente comerciantes indianos Bengalis (na área do Martim Moniz), paquistaneses e chineses exploraram os seus empregados asiáticos. Menos salários, horários prolongados de trabalho, despedimentos de trabalhadores sem direito a qualquer pagamento, coerção, desrespeito pelos contratos de trabalho, foram alguns dos abusos aos direitos humanos. Durante o confinamento, os trabalhadores migrantes asiáticos sofreram às mãos dos seus patrões asiáticos. Mas em tempos normais sofrem o mesmo destino diariamente. A normalidade também é, provavelmente, uma ilusão para eles, mas a crise não. A dor, a agonia e a frustração que nascem da crise são muito reais para si.

Finalmente, pode ser dito que a pandemia da covid-19 talvez seja, pela sua natureza, excecional e temporária para as elites governantes e as classes médias. Contudo, para milhões de trabalhadores migrantes pobres da Índia, a crise é permanente. A pandemia expôs as falhas sistemáticas da frágil sociedade indiana. Certamente mostrou aos trabalhadores migrantes indianos que são indesejados no seu próprio país. Quanto sociedades como esta serão capazes de suster as forças de uma perturbação volátil, apenas o tempo o dirá. A pandemia da covid-19 pode ter redefinido a “ideia de normalidade” para os privilegiados, mas para os excluídos, marginalizados e discriminados, o conforto da normalidade é apenas uma ilusão.

Sobre o/a autor(a)

Investigador no Centro para o Estudo das Línguas e Sociedade Indianas e doutorando no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
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