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A Narrativa

O poder da narrativa que suporta a austeridade tem contribuído para a grande passividade de diversos setores da população.

Apesar de todos os abusos, atropelos, maus tratos e violações até, o caminho da austeridade continua a convencer grande parte da opinião pública portuguesa. Como é possível? É certo que o mainstreamde comentadores para isso contribui, disfarçando cada vez menos as suas inclinações ideológicas. Mas muitas outras explicações são naturalmente necessárias para a concordância com o atual quadro encontrada nos mais diversos sectores sociais. Do pequeno empresário ao técnico superior da função pública, do médio pensionista ao trabalhador precário de uma grande superfície, do bancário ao administrativo numa qualquer repartição pública, a concordância e/ou a complacência com a atual política encontra-se em todo o lado.

O fator cultural costuma ser genericamente apontado como grande explicação para o que está a suceder em Portugal. Os brandos costumes portugueses assumem assim um lugar de destaque para a resolução deste enigma. Mas se calhar, não muito distante desta explicação, encontra-se o poder da narrativa que tem sido formulada para explicar o presente cenário: “Vivemos acima das nossas possibilidades. Temos agora de assumir as consequências”. É esta a mensagem que tão bem tem chegado às pessoas. E consegue fazê-lo com recurso a formulações diversas. Se quiserem variantes mais católicas, também as há, e muitas: “Estivemos a viver no pecado. Só o sacrifício nos salvará. E podemos até facilmente encontrar uma versão infantil da narrativa: “Portamo-nos mal. Estamos de castigo.

Embora esteja longe de explicar tudo, este quadro mental tremendamente simples em muito tem contribuído para a tão grande passividade de diversos setores da população.O seu poder reside precisamente no facto da sua compreensão e apreensão estar ao alcance de qualquer um.

O poder desta narrativa que suporta a austeridade tem criado naturais dificuldades à comunicação de soluções de esquerda para enfrentar o atual panorama. Aliás, no atual cenário, a esquerda até podia fazer o pino ao mesmo tempo que apresentava mil caminhos alternativos viáveis à atual austeridade e mesmo assim não seria certo que convencesse setores fundamentais do eleitorado. Encontramo-nos em terreno irracional e bastante emotivo. Contrariá-lo exige um esforço hercúleo. Todos os trunfos têm de ser levados a jogo.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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