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Não te vitimizes pá

O que as análises sugerem é que Portugal é um dos países da Europa com mais elevado índice de racismo implícito.

Tudo o que de injusto acontece aos negros, também acontece aos brancos. O restaurante com mesas vazias mas reservadas, o hotel enorme sem quartos livres em época baixa, a senhora que amarra a carteira ao braço e acelera o passo, o polícia que observa desconfiado, o taxista que recusa o transporte, as discotecas com códigos de traje, a casa que passou a estar alugada no momento da visita, tudo pode acontecer a todos, negros e brancos. Tortura nas esquadras, ser agredido por seguranças, sentenças mais duras, despejos facilitados, buracos sem água e sem luz, insucesso escolar, professor que aconselha o ofício, o bom trabalho negado, a lista de deputados que não representa: a menos que os perpetradores da violência reconheçam que a praticaram movidos por preconceito racial, não se consegue provar a inclinação racista da situação. Mesmo quando se tem a convicção de que se tratou de uma atitude ou decisão racista, não interessa, é uma crença; por conseguinte, as vítimas que não se queixem, não vá a enorme maioria exercer a violência da indiferença ao racismo sobre a violência racista, ao desvalorizar a sua angústia debitando a conhecida frase, não te vitimizes pá.

O racista é aquele que estabelece uma escala de valores a partir de gradações da cor da pele: mais escuro igual a pior, mais claro igual a melhor. Divide a espécie humana em raças, raças que não existem mas que passam a existir a partir do momento em que se operacionalizam no dia a dia das pessoas. É tão ignorante que de uma assentada, derrota a biologia, a antropologia, a sociologia, a psicologia. Despersonaliza as pessoas, arruma-as em caixinhas no seu sótão empoeirado, cada uma com rótulo de raça, e forma opiniões, interage e decide com base nesse arquivo anacrónico, mas vivo. É legítimo que se conclua que no espaço da soberania do racista, as situações de injustiça que acontecem a negros e a brancos, aconteçam mais vezes a negros do que a brancos.

Imagine-se quando o racista ocupa cargos de decisão nas organizações, aqueles que garantem o exercício de direitos iguais para todos, como diz a Lei. Imagine-se quando o racista é o polícia, o juiz, o médico. Quando é o professor, o empregador. Imagine-se. A escola e o trabalho desempenham um papel crítico na definição das condições de vida das pessoas. A escola porque determina as suas competências de cidadania e laborais a médio prazo, e o trabalho porque proporciona os meios materiais para romper com a exclusão e ascender socialmente.

Há estudos que identificam níveis significativos de racismo nas escolas portuguesas. Vários, esporádicos, sem consequências. No que respeita ao racismo institucional, lembro-me, por exemplo, de "imigração e escolaridade - trajetos e condições de integração" do ISCTE, de 2018, que conclui que os alunos negros (afrodescendentes) têm piores notas, chumbam mais e são mais facilmente aliciados a abandonar o ensino regular para integrarem outras ofertas educativas (cursos profissionais), independentemente da sua pertença a agregados familiares com grau de escolaridade elevada.

No que respeita ao trabalho, nem precisamos de recorrer a estudos para que percebamos que há racismo nesta dimensão. Basta olharmos em redor: onde estão os negros? Alguns são protagonistas de descrições literárias de pendor étnico, belas como missangas e capulanas ou desconcertantes como olhares sem futuro. Outros aparecem nos noticiários do insucesso escolar, da pequena delinquência e da agitação em movimentos pendulares. Há o hip-hop. Às vezes também há cachupa e quizomba. Mas onde estão as referências? Sabemos que há referências no desporto, todavia no desporto ou se corre ou não se corre, ou se salta ou não se salta, isso vê-se, não há como obstaculizar. Onde estão as referências no mundo académico, no mundo intelectual, no mundo da cultura, na comunicação social, nos partidos políticos, nas empresas: onde estão? Não estão. Havendo exceções, essa é a norma: não estão. Claro que empregadores e recrutadores têm sempre o resguardo de remeter para a escola o lugar do muro inexpugnável; provavelmente é nessa instância onde se condenam os negros a ocupações de menor relevância social. No entanto, a escola também pode dizer que é a falta de condições materiais dos agregados familiares negros que está na origem do insucesso escolar das crianças negras. O trabalho mal pago dos pais, o seu desemprego maior, a sua maior precariedade. Um ciclo vicioso que a política não está interessada em resolver.

A Amnistia Internacional e a Organização das Nações Unidas têm denunciado sinais e manifestações preocupantes de racismo em Portugal, também, no que respeita às questões da escola e da invisibilidade de negros em cargos visíveis. Fazem-no todos os anos e recomendam que sejam tomadas medidas. Por exemplo, a recolha periódica de dados por raça/etnia e uma educação que proporcione uma narrativa histórica que não eleve o que fere.

O apuramento periódico de estatísticas por raça permitiria o acesso a diagnósticos e sistemas de monitorização da evolução das condições de vida dos grupos raciais; os quais informariam a programação, implementação e avaliação das políticas de combate ao racismo. Não se percebe porque não se faz, não se percebe o prurido na origem desta omissão.

Uma solução de curto prazo para que se sobreviva em ambiente hostil a determinado atributo que nos caracteriza, consiste em colocá-lo no armário. Com danos psicológicos e emocionais, não deixa de ser uma possibilidade. Sobreviver. No que respeita à raça isso é impossível, ninguém esconde a sua raça no armário, todos os dias se veste a raça e aos racistas basta olhar. A não recolha de dados por raça apenas presta um serviço ao racismo, que consiste em não permitir que se faça prova da gravidade da sua implantação na sociedade, justificando-se assim o constante alheamento da esfera política ao domínio.

As narrativas históricas atuais, ao contrário do que seria desejável, continuam a ser um veículo promotor do racismo. A forma como negros e brancos convivem, depende da forma como negros e brancos vivem a sua história comum. Se se pretende que negros e brancos se sintam iguais no futuro, há que conferir essa igualdade no passado. Igualdade de dignidade. A igualdade entre descendentes exige respeito pela memória dos ascendentes.

A escravatura e a colonização são dois episódios que colocam negros e brancos em contacto, contudo, em situações antagónicas. O negro é o escravo e o colonizado e o branco é o proprietário do negro, da terra do negro e das riquezas do negro. A História é a História e factos são factos. A História aconteceu e deve ser contada como aconteceu. A sua leitura deve ser efetuada à luz do pensamento e da moralidade da época. No passado, as pessoas pensavam de modo diferente, os funcionamentos e os entendimentos eram outros. Não faz sentido que empreguemos a episódios do passado, a escala valorativa do presente. Contudo, também não faz sentido que episódios repudiados à luz da moralidade atual, sejam celebrados. Os brancos de hoje não são culpados pelo mal que os brancos do passado fizeram aos negros do passado -mas os brancos de hoje são culpados pela consagração do mal que os brancos do passado fizeram aos negros do passado. A celebração de acontecimentos que ofendem a memória de parte dos cidadãos do país, não permite que as feridas sarem, e eterniza preconceitos e estereótipos raciais, raiz e a seiva da persistência do racismo.

Há cerca de um ano foram difundidas duas análises que medem os desencadeadores remotos do racismo, designadamente, os preconceitos e os estereótipos enraizados nas sociedades da vasta maioria dos países europeus. Um indicador do Implicit Project que calcula o racismo implícito, entendido como reação negativa instintiva a alguém que não é da mesma raça, e a incidência de racismo biológico e cultural com base em dados proporcionados pelo European Social Survey. Os recursos técnicos e científicos dos projetos podem ser acedidos na respetiva página. Enfatize-se que no seu conjunto, os projetos envolvem prestigiadas universidades dos Estados Unidos e da Europa. O que as análises sugerem é que Portugal é um dos países da Europa com mais elevado índice de racismo implícito; que 52,9% dos portugueses acreditam “que há raças ou grupos étnicos que nasceram menos inteligentes e/ou menos trabalhadores”; e que 54,1% acreditam “que há culturas muito melhores do que outras”. Em face disto: não te vitimizes pá?

Sobre o/a autor(a)

Economista
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